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20.4.11

MEMÓRIA

DRAMATISMO

Governar o país não é fácil. Implica uma suprema habilidade para dirigir o barco no rumo certo, com equilíbrio, evitando tanto quanto possível a ondulação mais forte, não vá o barco adornar. É por isso que precisamos dos políticos. Sobretudo daqueles que têm o leme nas mãos. Todavia, nem sempre é possível levar o barco por mar calmo. As tempestades surgem, a vaga torna-se alterosa, o barco mete água aqui e ali. Quando assim é, toda a companha é necessária, de balde na mão, para evitar o naufrágio. Com uma condição. Para arrostar com o perigo, a companha tem que ter uma confiança ilimitada no mestre que guia o barco. Se a não tem, protesta, primeiro em murmúrio, depois em voz alta e, no fim, em gritaria imensa. E o perigo agiganta-se.

É mais ou menos assim com o governação do nosso país, neste momento. Por razões de todos conhecidas, entre as quais avultam os anos de mãos largas, durante os quais não soubemos procurar mar chão. Afastamo-nos do rumo necessário mais do que a conta. E agora, para chegar a bom porto, temos que atravessar um mar cão. O Governo tem vindo a tomar muitas medidas impopulares. É aquilo a que eu já chamei "a ditadura do défice". Em nome da necessidade de equilíbrio das contas públicas, o Estado cada vez nos dá menos e leva cada vez mais. Face a tão grande ataque ao que usávamos chamar "os direitos adquiridos", o Povo não se cala, cada vez grita mais, o Primeiro-Ministro não pode ir a lado algum, que não tenha manifestações hostis à sua espera. Ele e os seus Ministros correm o país, procurando explicar às pessoas a razão de ser das medidas assumidas. Pode ser que eu me engane, mas parece-me que ele está a falar para surdos. Das duas três. Ou as pessoas não ouvem. Ou não querem ouvir. Ou ouvem e fazem de conta que não ouvem. O que dá tudo no mesmo. Estamos a viver uma situação de elevado dramatismo que, confesso, não sei como vai terminar. Tudo vai depender de duas coisas. Em primeiro lugar que aí, já adiante, se chegue, pelo menos, a mar mais calmo. E, em segundo lugar, que os governantes tenham razão e consigam equilibrar o país com o que estão a fazer. Confesso que não sei se vão acontecer as duas coisas.

Há, na atitude do Primeiro Ministro algo de que não gosto. Porque não mobiliza uma parcela esmagadora da população. Para quem o ouve, parece que todos nós estamos rendidos à eficácia do Governo e que só a oposição é que tem má língua, a desmerecer no que é feito. A atitude de Sócrates é, no mínimo, cegueira pura. Se fosse verdade o que ele diz, e atendendo às vozes que se ouvem na praça pública, a oposição tinha gente que nunca mais acabava. O Primeiro-Ministro não é humilde e não sabe que Portugal precisa da conjugação dos esforços de todos e não de confrontos desnecessários.

Magalhães Pinto, em MATOSINHOS HOJE, em 17/10/2006

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