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5.2.08

OS HERÓIS E O MEDO - 165º. fascículo


(continuação)

Acabada a busca infrutífera, Soares da Cunha ordenou a retirada. Afastaram-se da aldeia uma ou duas centenas de metros e o oficial fê-los parar novamente. E ordenou a alguns homens para irem às viaturas buscar morteiros e granadas. Quando eles voltaram, mandou armar os morteiros e apontar à aldeia. Os homens ainda o olharam, interrogativos. Mas o rosto duro do capitão não deixava espaço para diálogos. Foi ele mesmo a enfiar no tubo a primeira granada. Ouviu-se o deslizar da granada cano abaixo, fazendo silvar o ar expelido. O barulho do choque do fulminante com o percutor confundiu-se com o assobio da granada a ser expelida do tubo e a cruzar os ares. A explosão. Em cheio na aldeia. Soares da Cunha mandou esgotar o cunhete. As granadas sucederam-se ao ritmo das explosões. Pam...Pam... Pam... Pancadas secas de pilão a esboroar fragilidades de adobe e colmo. Quando o cunhete ficou vazio, novamente o silêncio. A tabanca tinha deixado de existir. Toda. As moranças. As mulheres. As crianças. Os velhos. As galinhas.

Os homens voltaram à coluna, calados, opressivamente calados, às viaturas. Soares da Cunha interrompeu a operação e ordenou o regresso. Durante a viagem, Mário não pronunciou palavra. Aliás, ninguém falou.

(continua)
Magalhães Pinto

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