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6.2.08

OS HERÓIS E O MEDO - 166º. fascículo

(continuação)

Não se sabe bem qual é o sentido da crueldade sem se vir à guerra. Bater. Prender. Violar. Tudo perde sentido aqui. Tudo isso são meiguices. Esta violência não fere, queima. A alma. E, depois, este silêncio. É este silêncio que mais me confrange, que mais me dói. É preciso ser herói para assistir a tudo isto em silêncio. É preciso saber calar a consciência. Se não calas a consciência, Mário, calam-te a ti para sempre. Porquê as crianças, meu Deus? O "Xabregas" era ainda uma criança. E aquelas na tabanca? Porquê elas também? Será que não podemos poupá-las a isto? Será que têm que assar no churrasco dum capitão vingativo, como se fossem apenas frangos?


Quando chegaram a Bissau, receberam a notícia de ir começar a rendição das Companhias estacionadas no Oio. O jantar decorreu normalmente. Apenas a curiosidade dos que tinham ficado a questionar os que tinham ido. Recebendo aparentes respostas de enfado as mais das vezes. Quase todos eles, os que tinham ido, só queriam esquecer. Nessa noite, Mário sonhou com uma criança negra, de cabelos loiros, a apregoar um jornal imaculadamente branco, sem notícias nem fotografias.

(continua)
Magalhães Pinto

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