(continuação)Na Índia, os meios fornecidos pelo poder político eram nitidamente insuficientes para o desempenho da missão. O exército indiano estava em casa, enquanto os portugueses estavam a meio mundo de distância. O exército indiano estava longe de ser um bando de arruaceiros. Tinha a superior escola de guerra dos britânicos, cuja organização herdara, primeiro, e copiara, depois. Estava bem armado e equipado. Enquanto os portugueses ainda lutavam de espingarda Mäuser, que os alemães haviam usado na primeira guerra mundial. Inteligente havia sido o Pandita Nehru que, para evitar desnecessário derramamento de sangue dos dois lados, havia atacado com uma superioridade esmagadora em número e em meios. Teria sido uma estupidez indesculpável resistir. Um suicídio sem honra nem glória. Antonio Soveral compreendia bem a atitude dos comandos portugueses. Especialmente do Vassalo. Nenhum militar gosta de se render no campo de batalha. E tinha-lhe sido necessária, seguramente, maior dose de heroicidade para ordenar às tropas a rendição do que para lhes ordenar o combate. Os comandos superiores raramente morrem em batalha. O seu bem supremo, a vida própria, não estaria em risco, com grande probabilidade, se ordenasse o combate. E ele saberia, certamente, que o maior ónus da rendição cairia sobre os seus ombros. Ao colocar a vida dos seus homens acima dos seus próprios interesses, o Vassalo havia sido um herói. Havia assumido com honra a melhor opção, a mais humana, a mais justa. Humanidade e justiça, duas condições dignas de um comandante. Ainda que, concordava António Soveral, com a perda dos territórios na Índia tivesse sido uma parte da Pátria que se perdera. Mas também era verdade uma outra coisa. Ao contrário do que acontecia em África, a presença dos Portugueses não estava justificada por quaisquer intuitos civilizadores. Quando ali haviam chegado, os Portugueses tinham encontrado uma civilização, diferente é certo, mas, em muitos aspectos, igual ou superior à europeia. A presença portuguesa na Índia fora motivada por razões eminentemente económicas, comerciais. As quais se encontrava, agora, muito reduzidas, todas as praças perdidas com excepção de Goa, Damão, Diu e os diminutos enclaves de Dadrá e Nagar-Aveli. Não fazia sentido, nem historica nem economicamente, sacrificar vidas humanas na Índia. Conhecia o filho. Sabia a educação por ele recebida. Sabia como tentara transmitir-lhe um sentimento de honra estribado, essencialmente, na inteligência e na justiça. Sabia como ele deveria ter ficado chocado quando, ao regressar da Índia, vindo de um campo de prisioneiros, havia sido feito prisioneiro na sua própria Pátria. Faltava-lhe a formação política necessária para entender o fenómeno político. Num momento em que a política ultramarina de Portugal era atacada por quase toda a comunidade internacional, a Índia era essencialmente um símbolo. Caída a primeira carta, todo o castelo corria riscos de se desmoronar. Provando isso, o caso de Angola. O início da guerra subversiva quase coincidente com a invasão da Índia. Se não tinham combinado, era certamente um aproveitamento das dificuldades de Portugal. A generalização às outras Províncias era previsível. Até admirava porque é que ali, na Guiné, havia demorado tanto tempo a eclosão da guerra. Mais de dois anos depois dos acontecimentos de Angola. O diabo do Amílcar Cabral não queria mesmo resolver as coisas a murro. Agora, com o incêndio a tomar grandes proporções, seria tudo muito difícil. Nesse sentido, talvez o "Velho" tivesse tido razão, no caso da Índia. Mas formação política era algo que ele vinha evitando dar aos novos militares, desde os finais dos anos quarenta. Se alguma discussão veladamente política aparecia nos quartéis, era trazida para o seu interior pelos oficiais milicianos.
(continua)
Magalhães Pinto
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