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3.2.07

MEMORIA

Uma vez, já há alguns anos, escrevi aqui, nestas colunas, que considerava trágico estarmos a ser governados por António Guterres. Não faltou quem nisso visse a manifestação de partidarismo. O tempo passou. Seis longos anos. De laxismo. De incompetência. De compadrio. De reformas urgentes não feitas. De esbanjamento dos nossos sempre parcos recursos. De cobardia governativa. De palermices umas atrás das outras. O resultado está aí, à vista. Não sou eu que o digo, agora. São os Portugueses que o sentem na pele. São vozes autorizadas, de gente séria. É a Bolsa que o reflecte. São os impostos não pagos. É a ruptura do Estado. É uma frágil segurança social. É o desemprego. São as contestações da via pública.

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O efeito mais imediato é o desequilíbrio das contas do Estado. Um défice monumental. Ainda por cima, proibido pela mesma Europa que se farta de mandar para cá dinheiro. É verdade que outros países, bem mais fortes do que nós, padecem do mesmo mal. Só que lá, o desequilíbrio é conjuntural. Uma pequena melhoria da situação económica e o défice desaparece. Enquanto, entre nós, o défice é estrutural. . Não há melhoria económica que nos salve. 15% do Produto Nacional Bruto é absorvido pelo pagamento de salários a cerca de 700.000 servidores públicos. E não há forma de reduzir isto a não ser através da redução de salários – o que é impossível – ou do despedimento dos funcionários públicos – o que estes não aceitam. Pobre ilusão! Não há modo de enganar a realidade. Não aceitando as reformas necessárias, agora, os Portugueses estão a cavar o buraco onde vão cair, inexoravelmente.

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Gostaria de terminar estas minhas notas de hoje com palavras de esperança. Claro que há sempre lugar para ela. Mesmo como cadáver, Portugal voltará à superfície. Esperemos que não seja como cadáver. Mas de algo já ninguém nos livra. Da sede e da fome a que os náufragos estão sujeitos. E é de naufrágio que poderemos estar a falar bem em breve. Por nossa culpa. Por nossa exclusiva culpa. Uma culpa que ainda nos custa reconhecer. Como bem o dizem os esforços dos diferentes grupos de pressão para manterem os seus privilégios. Novamente, ilusão. Que acabará por nos atirar uns contra os outros, precisamente quando deveríamos estar mais unidos. A próxima adesão de mais dez países à Comunidade Europeia, o consequente desvio dos fundos desta para esses novos países - tal como já vieram para Portugal - e as condições mais favoráveis que esses países oferecem – tal como já aconteceu com Portugal – encarregar-se-ão de mostrar que, se o navio for ao fundo, ninguém escapará. Nem mesmo os ratos.

Excertos da crónica "NEGRO" - Magalhães Pinto - Vida Económica - 22/10/2002

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