- O QUE SOMOS?
Essencialmente, razão, sentimento e vontade, logo responsabilidade.
- QUAL O SENTIDO DA NOSSA EXISTÊNCIA?
Assegurar a perenidade do Homem.
Mas assegurar a perenidade do Homem, na transcendência do que lhe é essencial, não se reduz a uma função reprodutora. A dignidade do ser humano, a sua natureza semi-divina, exigem um esforço constante de superação das limitações que, por não ser deus inteiro, o Homem conhece. Esforço voluntário, esforço sentimental, esforço racional, constantemente dirigido ao aperfeiçoamento da sua existência. E aqui, o universo etéreo das essências tem que ser abandonado, para se descer à comezinha realidade das coisas práticas, da produção concreta da existência, na atitude imensamente eficaz do cavador que, depois de sentir o vento e olhar as nuvens, de sopesar a enxada e palpar a terra, arregaça as mangas, cospe nas mãos calejadas e se arrima denodadamente ao trabalho, antes que o sol aqueça ou a noite caia, sabendo, por intuição ou consciência, que só assim a semente germinará, a planta folrirá e a flor frutificará.
E há tanto, ainda, para cavar!
Tanto, que só quando os homens, todos os homens, entenderem bem que o Homem perdurará apenas se o campo bem for lavrado e, lado a lado, enxadas na mão, violando a terra endurecida de preconceitos, paulatinamente, ao ritmo dum cântico de fraternidade, entoado em uníssono até que gargantas fiquem roucas, regando-a com o suor do seu rosto e não com as lágrimas duma criança amedrontada, esboroando os torrões mais duros com a firmeza tenaz duma vontade forte, rasando as silvas eriçadas de espinhos que povoam um futuro difícil mas digno de ser vivido, destruindo os parasitas com o vermifugo de bom exemplo e semeando a boa semente do trabalho profícuo em favor dos outros, só então, só quando os homens, todos os homens, entenderem isso, a perenidade do Homem estará assegurada.
Dir-se-á que é empresa difícil de levar a cabo; que o Homem é uma abstracção e que o que existe são homens, não o Homem. Mas no momento em que cada um de nós se transforme em benigno anticorpo e, com a diligência comum dos anti-corpos, ataque, sem desfalecimento, as bactérias que conspurcam, infectam, corrompem e tendem a conduzir à morte o corpo maravilhoso da Humanidade, a tarefa transformar-se-á, como que por sedutor encantamento, no avanço simples e fácil do Homem rumo à eternidade e à perfeição.
Excerto da conferência QUE FAZEIS DO MEU MUNDO - Magaçhães Pinto
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