(continuação)Finda a distribuição, nas mãos do carteiro ocasional apenas ficam a correspondência para o destacamento de Cutia e uma ou outra carta destinada a ausentes. A maior parte destes estão no hospital. E segue-se o frenético rasgar das margens dos sobrescritos para um breve mastigar dos conteúdos sempre iguais, a ruminar mais tarde. Estás bem, muito obrigado, nós por aqui, tem cuidado, Deus te abençoe. Muito raramente, uma verdadeira novidade. A “Mansa”, sabes, pariu um vitelinho que é um amor. Loiro, como tu, salvo seja. O teu irmão leva-a ao pasto, já que tu não estás cá. Ou então uma notícia preocupante. Vê lá se escreves à tua conversada que ela parece-me que anda de cabeça no ar, o dianho da rapariga. Traz o mafarrico no corpo. Acompanhada duma recomendação trivial, a disfarçar. E não te esqueças de escrever ao teu tio Chico, que ele diz que tu o esqueceste sempre que estão com nós. A língua leva tratos de polé mas tem a música de um poema. Droga esquisita. Que habitua. Que anestesia e cala as dores. Suave ressaca com a duração de uma semana. A doer quando falta.
(continua)
Magalhães Pinto
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