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27.3.08

OS HERÓIS E O MEDO - 215º. fascículo


(continuação)

A conversa prometia continuar. Mas foi interrompida por uma chamada de Soveral ao telefone. De Bissau. Tinha pedido que o informassem, logo fosse possível, do estado dos feridos da operação Morés. Foram animadoras. Todos estavam fora de perigo. Também assim o soldado negro da milícia evacuado. O ferimento era mais aparente do que mortal. Nenhum orgão vital tinha sido atingido. Dentro de um mês estaria pronto para outra. A condição mais grave era a de um tal Reinaldo. Tinham sido necessário amputar-lhe uma mão. Completamente esfacelada. Provavelmente, ficaria também surdo de um ouvido.

Soveral mandou anunciar aos homens estarem todos os feridos a salvo. Era um modo de levantar o moral dos homens. Quando ela chegou aos ouvidos de Mário, não lhe provocou nenhuma reacção aparente. Já lhe tinham contado como tudo tinha acontecido. Uma granada ofensiva, daquelas quase sem estilhaços, caíra ao lado do Reinaldo, sem deflagrar. Mas sem cavilha. Aviso de deflagração a todo o instante. Embora as granadas ofensivas fizessem mais barulho que estragos, o rapaz percebeu que, assim tão próxima, se rebentasse não deixaria de magoar alguém, a começar por ele próprio. Com coragem, pegou na granada, disposto a reenviá-la à procedência. Quando o gesto de lançamento da granada ia a meio, mesmo junto ao ouvido direito, a granada explodira. Por sorte e ao contrário de muitos, Reinaldo decidira fazer a operação usando capacete em lugar do quico. A decisão salvara-o, provavelmente.

(continua)
Magalhães Pinto

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