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6.3.08

MEMÓRIA

Sondagens realizadas recentemente dão Portugal como o país mais pessimista da Europa. Não foi nada que me surpreendesse. Há longo tempo que venho a ser uma das vozes desse pessimismo generalizado em que Portugal sempre esteve mergulhado - mesmo nos tempos de vacas mais gordas - mas que atingiu, no último ano, o seu ponto mais baixo. E, diga-se com franqueza, os comentários que vimos fazer a tal verificação, não seriam de molde a corrigir, inverter ou sequer parar a onda de mal-estar. De um modo geral, o pessimismo português foi associado mais a factores endógenos do povo que somos do que a razões exógenas provocadoras de um sentimento de infelicidade generalizado. Não é assim, obviamente. Somos pessimistas porque não temos tido razões para ser optimistas. E não por qualquer milagre do nosso nascimento. Existissem razões e seríamos tão optimistas como os demais.

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Mas, para além disso, os portugueses têm assistido a um crescimento explosivo dos impostos que pagavam. Há vinte e cinco anos, Portugal era o 17º. país com maior carga fiscal, entre os dezanove comparados. É hoje o 14º.. Parece que não é uma evolução muito acentuada. Opinião que se modifica quando verificamos que Portugal foi, dos dezanove países anotados, o quarto país com maior aumento relativo dos impostos. À nossa frente, apenas a Turquia, a Espanha e a Itália. Isto é, o sacrifício pedido aos portugueses, em termos fiscais, foi, nestes últimos vinte e cinco anos, um dos maiores da Europa. Motivo já para ficar preocupado e pessimista. Tanto mais que, ao contrário dos restantes países onde se verificaream aumentos de carga fiscal semelhantes, nós estávamos, no início da comparação, a sair de uma guerra colonial que consumia recursos assinaláveis. Tão assinaláveis que se disse então que o nosso subdesenvolvimento era, em grande parte, devido a isso.

Para acrescentar o nosso pessimismo neste domínio, damos conta que, apesar do grande esforço fiscal pedido aos portugueses, e não obstante termos deixado de escoar o melhor dos nossos recursos numa guerra sem fim à vista, o desenvolvimento que tal esforço devia ter induzido não se produziu.

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Excertos da crónica VIRAGEM - Magalhães Pinto - "VIDA ECONÓMICA" - 15/2/2004

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