Pesquisar neste blogue

2.3.08

OS HERÓIS E O MEDO - 190º. fascículo

(continuação)

A milícia traduzia um dos dramas da Guiné. Como do resto de África. Algo que os povos colonizadores nunca conseguiram resolver. A mistura de etnias numa pretensa nacionalidade comum. Ao chegarem a África, os colonizadores tinham estabelecido o seu domínio em territórios delimitados e unificados englobando várias etnias, diversas tribos, até aí independentes. À unidade política assim definida não correspondia uma unidade étnica ou, sequer, cultural. E não chegou meio milénio para resolver o problema. Na segunda metade do século XX, só na Guiné, havia vinte e duas etnias diferentes. Diferenciadas em termos sociais, culturais e religiosos. Mais desenvolvidas, as tribos maometanas, como os Fulas, os Futafulas e os Mandingas. Com religião e língua devidamente estruturadas. Essencialmente comerciantes. Por isso, culturalmente mais próximos da Europa Ocidental. Mas vivendo um drama político. Eram, em número, inferiores aos Balantas, a etnia mais numerosa existente na Guiné. Essencialmente agricultores. Com uma religião anímica de contornos mal definidos. A guerra contra os colonizadores era principalmente alimentada pelos Balantas. A vitória do movimento de independência significaria, para os maometanos, uma tragédia. De quase assimilados pelos colonizadores, com todos os benefícios sociais daí decorrentes, passariam a etnia subordinada. O que determinava o seu combate ao lado das tropas regulares, organizados em milícias. Para além de servirem de guias, função em que eram exímios pelo conhecimento pormenorizado do terreno, também participavam em operações bélicas.

(continua)
Magalhães Pinto

Sem comentários: