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6.3.08

OS HERÓIS E O MEDO - 194º. fascículo

(continuação)

A corrida de Mamadú durava há séculos e ainda faltavam quilómetros para o lado de lá. Mais um passo. Mamadú gritou, estremeceu, vacilou, caiu. Faltavam dois ou três metros para estar abrigado novamente. Mário esvaziou o carregador com raiva, na direcção dos emboscados. Encomendara a morte para um homem e os guerrilheiros aviavam a encomenda. Via balas assassinas a morderem o chão, cada vez mais perto do corpo de Mamadú, numa ânsia voraz de o abocanharem, de o dilacerarem, de o esfarraparem. Era preciso tirá-lo dali. Mário olhou em redor. Estava sózinho. Era preciso ajudar o homem.


Porra! Eu não quero ser herói. O gajo já sabia que isto não era uma brincadeira de cóbois. Que vá à merda. Eu não quero ser herói. Caiu, caiu! Pronto. Podia ter sido eu. Se calhar, devia ter sido eu. Numa situação destas, qualquer homem pode cair. Qualquer homem. Pois. Ele também é um homem. Provavelmente está do lado errado da guerra. Mas está. É preciso safá-lo dali. Ele também tem mãe, com certeza. Se o deixo ali, ele vai para o galheiro. Se é que já não foi. Será que se fosse eu, ele me ia safar? Merda outra vez. Eu não quero ser herói. Ele é que vai ser herói se morrer. Mas porque é que temos que morrer para ser heróis? Porra…

(continua)
Magalhães Pinto

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