
(continuação)
Num salto feito de raiva, Mário iniciou a travessia em direcção a Mamadú. Atirou-se para ele, num mergulho. Abraçou-o. A Pátria multiracial num abraço para fugir à morte. Rolou com ele para fora do enfiamento do fogo adversário. Sacou uma das granadas presa à bandoleira e lançou-a no direcção da metralhadora. Com muita sorte. Acertou em cheio. A metralhadora calou-se, libertando o resto das forças postadas daquele lado da pressão que as mantinha quase imobilizadas. A reacção foi pronta. Em breve, a emboscada terminava. No terreno, dois mortos e alguns feridos do lado das tropas regulares. Quem? Ninguém parecia querer saber. Amanhã, depois, um dia desses, uma pequena notícia num jornal metropolitano, daria a conhecer o falecimento de mais dois homens em combate. Para os feridos, para os estropiados, nem uma linha. No Dia da Raça, os pais respectivos iriam ao Terreiro do Paço receber um caco. Manga de ronco. Por um dia, os dois homens seriam heróis. Apesar de carregarem, na sua morte, a heroicidade de tantos companheiros, de tantos familiares, de uma Pátria emurchecida, de uma História em fanicos.
(continua)
Magalhães Pinto
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