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8.3.08

OS HERÓIS E O MEDO - 196º. fascículo

(continuação)

Se houvera baixas do lado dos guerrilheiros, estes tinham-nas levado consigo. Com excepção de um, apanhado quando iniciava a fuga. Uma figura andrajosamente envolta nos farrapos sujos do que já tinha sido uma túnica. Rosto sem idade, medo colado aos olhos pisqueiros emprestando um ar patético à sua expressão. Despojos de gente que a pancada dos soldados ia amalgamando. Pela rádio, foram chamados os helicópteros para fazer a evacuação dos mortos e feridos e do prisioneiro. Entre os feridos, Mamadú, com um feio buraco no abdomen por onde a vida ameaçava escoar-se, não obstante o mal amanhado tampão que um maqueiro comprimia sobre a ferida, desesperadamente.

Cerca de uma hora depois, a caminhada para Morés era retomada. Dificilmente seria, agora, uma acção de surpresa. A emboscada afirmava, insofismavelmente, estarem os guerrilheiros à espera deles. Fechadas as vias de fuga, pensava Soveral, a comandar o seu Batalhão pessoalmente pela primeira vez desde a chegada, iriam dar boa luta, os terroristas.

Pelas três ou quatro horas da tarde, os cantis, parcimoniosamente racionados ao longo do dia, estavam vazios. Era a hora do sol mais quente. Os camuflados tinham já adquirido uma cor pardacenta e pesavam como chumbo, ressequida a lama que ficara das bolanhas atravessadas. Os homens eram ilhas de sede rodeadas de água salobra por todos os lados.

(continua)
Magalhes Pinto

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