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13.3.08

OS HERÓIS E O MEDO - 201º. fascículo

(continuação)

Tal e qual como em Almeirim, no tempo da recruta, naquela marcha terrível. Também lá, as mulheres vieram para a porta de casa oferecer pêssegos aos homens esbodegados pelo esforço e pelo calor. Quanta semelhança, meu Deus! Serão estes os traços de união da pátria, de que tanto nos falam? Ou isto será antes o traço de união duma humanidade a precisar de carinho e solidariedade? Que absurdo! Aqui vou eu, pronto para matar sabe-se lá se o filho desta mulher que me dessedenta. Haverá alguém de Almeirim aqui na companhia? Que absurda é a guerrilha! É uma luta de ardis. Não estamos preparados para ela. A surpresa, o golpe inesperado e traiçoeiro, a passagem rápida duma atitude de cooperação para um ataque mortífero, prenhe de ódio, podem estar ao voltar de cada bolanha. Tem cuidado, Mário, ou ainda te lixas! Não te deixes embalar por estas atitudes de humildade. Qualquer um desses aí humildemente acocorados pode estar amanhã a mandar-te um balázio, lá para as bandas de Morés. Porra! Estou a sentir-me desnorteado. Onde está o inimigo? Raios partam a guerrilha! E o terror? Quanto mais sadicamente o inimigo for eliminado, quanto mais violenta e cruel for a acção, tanto mais se reduz a energia moral contrária. Tenho os nervos em franja. Tenho que me proteger de inimigos que não sei onde estão. Como é possível ver um inimigo numa mulher a agir como se fosse de Almeirim?

(continua)

Magalhães Pinto

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