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14.3.08

OS HERÓIS E O MEDO - 202º. fascículo


(continuação)

Abastecidos de água, os homens prosseguiram. Chegaram a Morés já noite avançada. Uma densa floresta, no meio da qual se presumia existirem instalações dos guerrilheiros. Montaram bivaque na orla, aguardando pela madrugada, altura em que todas as forças, vindas de quatro direcções, deveriam estar já em posição para o ataque final. Deitado de costas, no chão, Mário deixou saltar o olhar de estrela em estrela, entretendo-se a descobrir as constelações de que ainda se recordava. Costumava fazer isso em garoto, quando ainda julgava que uma das estrelas era sua. Um meteorito rasgou o céu escuro, de lua nova, deixando atrás de si miríades de luz, a durarem apenas um instante. Mais um que ficara pelo caminho, interrompendo a sua marcha sideral de sabe-se lá quantos milénios, à procura de nada. Cansado e recostado numa pequena reentrância do solo, Mário acomodou melhor a cabeça na mochila, a servir de almofada, e deixou que um vago torpor o invadisse. De vez em quando, uma pistola-metralhadora repetia, lá longe, o seu ra-ta-ta, fazendo lembrar a máquina de costura da tia quando, por longos serões, ficava a trabalhar na obra cuja entrega urgia.

(continua)
Magalhães Pinto

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