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8.4.08

OS HERÓIS E O MEDO - 228º. fascículo


(continuação)

De Mansoa a Mansabá são sessenta quilómetros bem medidos de picada irregular e traiçoeira, bordejando a imensa savana do Oio, aqui e além pintalgada de florestas e espelhos de água. Mais ou menos a meio caminho, o exército construiu uma fortificação, poiso obrigatório das colunas militares que, vindas de Bissau, demandam Mansabá ou, mais além, Olossato e Farim. Rudimentar poiso. Meia dúzia de abrigos de cibes com adobe por cima, tocas para toupeiras na hora dos morteiros inimigos, envolvidos por duas alas de arame farpado a servir de primeiro e frágil anteparo a um avanço aniquilador. Uma casamata de blocos de cimento, semi-enterrada no solo, de onde desponta uma pequena torre altaneira dominando a paisagem em redor. Por isso, das suas vigias se projectam, como dedos ameaçadores, os quatro canos de outras tantas metralhadoras pesadas. Lá no cimo da torre, a antena de rádio para as ligações a Mansoa ou Mansabá. Alguns latões, cheios de terra, espalhados a esmo, criam ângulos mortos destinados a reduzir a eficácia dos estilhaços das granadas que, periodicamente, aterram no fortim. Num dos cantos exteriores da casamata, num sítio onde aquela derrama a sua sombra já muito ao fim da tarde, jaz um velho e carcomido tronco, assento de soldados desocupados fumando um cigarro e espraiando a alma pela planície, a perder de vista.

(continua)
Magalhães Pinto

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