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13.4.08

OS HERÓIS E O MEDO - 233º. fascículo

(continuação)

O Manel rondou os sentinelas de turno. Ficou algum tempo, abrigado, junto ao “Miragaia”, enquanto fumavam ambos um cigarro, reminiscências embrulhadas nas espirais do fumo. O “Miragaia” era natural do Porto. Nascera numa daquelas casas acanhadas, há séculos repousadas nos arcos de granito que dão àquela zona da cidade o respeitável aspecto de monumento romano. Muitas vezes faltara à escola, retido em casa quando o Douro enchia, inundando tudo até à altura dos arcos. Começara muito cedo a amassar o pão azedo de cada dia, servindo nas obras da Boavista, carregando à cabeça gamelas de cal e argamassa, formiguita canhestra em prodígios de equilíbrio para não entornar a carga. Aos Domingos, o “Miragaia” ia para o estádio das Antas vender barretes para o sol e pastilhas de mascar, a fim de fazer a semanada. O salário, esse, era todo preciso para ajudar em casa. A conversa desaguou, como sempre, nas mulheres. O “Miragaia” correspondia-se com quatro moças. Todas madrinhas de guerra. A todas prometera casamento. Encarava com divertida preocupação o momento da chegada a Campanhã, todas quatro à sua espera. Desejava sinceramente vê-las engalfinharem-se umas nas outras, dando-lhe a oportunidade de se escapulir. Já mais seriamente, antecipava o momento da chegada. A velhota ia desfazer-se em lágrimas no abraço de saudade, enquanto o velho, esse ia disfarçar a emoção chamando-lhe vadio e comentando que ele lhe estava a fazer muita falta. A vida ia cara e os cinco irmãos mais pequenos ainda comiam pão. Oxalá não tivesse dificuldade em arranjar trabalho noutra arte. Não queria voltar para as obras. Isso do casamento viria mais tarde. Se calhar, com nenhuma das quatro. Seria, depois, o seu tempo para uma ranchada de filhos. O abono de família ajudava ao orçamento familiar. Com uma ranchada de filhos podia fazer-se mais em abono do que em salário.

(continua)
Magalhães Pinto

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