...Na primeira cena, o cavaleiro desmontou do cavalo. Em mangas de camisa, parecia, se as camisas já tinham sido inventadas. E ficou imóvel, ao lado do dito, como quem espera que a multidão em redor solte um grande Viva o Visconde (se é que o é). Depois, do outro lado do cavalo, pressuroso, o pajem deixou os arreios que segurava e voou, autenticamente voou, para as traseiras do equídeo, a buscar o manto, parecido com um casaco. O cavaleiro continuava imóvel. no local aonde tinham posto os pés em terra firme. Continuando a rodear o negro bicho e aproximou-se do fidalgo. Suavemente, colocou-lhe o manto – ou casaco ou lá que era – sobre os ombros primeiro, ajudando-o depois a enfiar os braços nas mangas do manto, que as tinha. Sacudiu um hipotético grão de poeira que repousaria nas costas do manto e, sempre ligeiro, dirigiu-se à bagageira do cavalo, que abriu e donde retirou uma reluzente pasta de coiro, que, pelo cuidado que nisso pôs, devia conter todos os segredos do reino. E, com a mesma ligeireza, foi entregá-la ao fidalgo que – pasme-se o meu Leitor como ele – permanecia no mesmo sítio de sempre. Só então – imagine-se a eternidade que tudo isto durou – o fidalgo ergueu o olhar altivo, ergueu os ombros encorrilhados, ergueu a barriga descaída. E avançou para o que deveria ser a Sala dos Contratos.
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Excerto da crónica SIC TRANSIT... - Magalhães Pinto - VIDA ECONÓMICA - 7/5/2008
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