
(continuação)
XXXI
A guerra não é negócio de Deus. Mesmo que os seus agentes andassem por ali a acompanhá-la. E, por não ser negócio dele, tão pouco quer saber o que nela se passa. Se existissem dúvidas, aquele Natal em Mansabá eliminá-las-ia.
O dia de Natal começara, para os homens, com a missa campal, rezada pelo padre capelão, vindo de Mansoa. Incluindo os não crentes, estão quase todos lá. Com a morte a cirandar pelas imediações, o melhor era não arranjar inimigos inutilmente. Uma das excepções é José António. A ler na caserna. A homilia fora particularmente tocante. O padre falara aos corações, recordara a família de cada qual, àquela hora seguramente a assistir à missa, nas cidades, nas vilas e nas aldeias de onde eram originários. Estariam a rezar pela sua segurança e a pedir um regresso a são e salvo daquela missão de defesa da Pátria que, por vontade de Deus, desempenhavam. Convidava-os, assim, à comunhão espiritual com todos os entes queridos. Para junto de quem haviam de voltar, se Deus quiser. Convidava-os a rogarem eles a Deus, por sua vez, que desse paciência e fé aos seus familiares, para esperarem tranquilamente pelo seu regresso. E, muito especialmente àqueles com filhos, o capelão recordava que os seus filhos eram, de algum modo, a encarnação do Deus Menino, cujo nascimento ali celebravam. Separados dos seus filhos, tinham o Menino a fazer-lhes companhia. No próximo Natal, talvez já consoassem juntos.
Na véspera, não tinha havido ceia. O receio de que os “turras” aproveitassem para um ataque de surpresa. Encontrando os homens de espírito menos límpido, por força das libações alcoólicas próprias da quadra. O bacalhau, ciosamente guardado para a ocasião, tivera de aguardar, assim, mais um dia para satisfazer a tradição. A actividade do dia resumira-se, na quadra, a acções de psico-social, com o médico da companhia a atender doentes das tabancas em redor de Mansabá, ao ritmo usado nas caixas de previdência em Portugal. Principalmente crianças. A assistência médica era, aliás, um fenómeno curioso da guerra. A desconfiança entre a tropa e os cidadãos estava permanentemente presente, palpável, visível, nas relações de cada dia. Mesmo as pautadas por cortesia mais ou menos social. Mas desaparecia na hora da consulta médica. Apesar dos feiticeiros da tribo. Apesar da guerra a gritar nas cercanias, apesar do médico ser um desconhecido de cada primeira vez, a fila de nativos era sempre numerosa. A trazer ao pensamento como tudo teria sido diferente se alguém se tivesse lembrado, no passado, de realmente auxiliar as populações.
(continua)
Magalhães Pinto
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