(continuação)José António, sozinho, deslocara-se à tabanca mais próxima. No bolso, levara algumas latas de conserva poupadas nas rações de combate. Era uma rotina sua dos dias parados, desde que chegara a Mansabá. Vinham os bolsos sempre vazios na volta. Talvez por isso, ele era rei da festa quando a tropa ia aos bailes da tabanca. Não havia muitos ousados. Mas os que iam, davam o tempo por bem empregue. Talvez em nenhuma outra situação a sensualidade do negro ficasse tão visível como nos bailes. Corpos entregues ao ritmo endiabrado do merengue. Suados todos. Requebrados os das mulheres. Retesados os dos homens. Posturas lascivas eram desenhadas, no movimento, insensivelmente. A dança parecia reproduzir a caça do primeiro macho à primeira fêmea, movidos ambos pelo instinto de conservação da espécie. Os quadris das mulheres remexiam-se continuamente, nádegas a saltitar, fugidias aos ventres dos homens que ameaçavam continuamente colar-se a elas. Quando o suor se acumulava, o cheiro a catinga infiltrava-se nas narinas, insinuava-se nos sentidos, excitando-os, como poderoso e animalesco afrodisíaco, misteriosa cocaína destilada por corpos febris. Sob o fogo do ritmo cada vez mais rápido vomitado pelo gira-discos a quarenta e cinco rotações, provavelmente importado clandestinamente do Senegal. A José António nunca faltavam bajudas com quem dançar.
(continua)
Magalhães Pinto
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