(continuação)O jagudi é madrugador e, habitualmente, dá por prontas as suas tarefas antes que o quartel se anime com o movimento dos militares. Mas nesse dia, bastante especial, os jagudis tiveram despertador. E não era caso para menos. Há exactamente um ano, tinham deixado o cais de Alcântara, rumo a uma aventura de dois anos.
Na guerra não há Natal, nem há Páscoa, Santo António ou S. João. E os homens só se lembram do próprio aniversário se um familiar qualquer lhes envia um radiograma. Contudo, aniversário da comissão ninguém o esquece. Contados lentamente os dias já transcorridos, o aniversário ganha o simbolismo do cume da ladeira, a partir do qual se inicia a descida. Ambas cheias de perigos. Mas, mesmo assim, é melhor descer que subir. O calendário parece inverter-se, tão enraizada está esta ideia. Até aí, o tempo de comissão é contado somando os dias. A partir daí, é subtraindo. Ninguém dirá mais quanto tempo tem de Guiné, mas sim quanto tempo lhe falta para voltar.
(continua)
Magalhães Pinto
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