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7.1.08

CRÓNICA DA SEMANA (I)

Foi uma pequena notícia no canto do jornal. Aquela professora, ali para os lados da Mealhada, morreu com um cancro nos pulmões. Se meditarmos um pouco, somos capazes de avaliar os sofrimentos físicos por que passou, antes de morrer. Mas, por mais que nos esforcemos, não seremos - eu, pelo menos, não o sou – capazes de imaginar o sofrimento moral porque terá passado. E isso porque, com base numa lei estúpida e em orientações superiores que parecem existir, lhe foi recusada a aposentação antecipada. E nem sequer lhe foi reduzido, durante o período em que esteve doente, o tempo de aulas efectivas a leccionar.

É verdade que, quem governa, o faz para dez milhões de portugueses. Mas também não é menos verdade que cada um de nós tem uma dignidade igual à de cada um dos demais e igual à totalidade da população. Aliás, não faz sentido pensarmos em nós como um Povo, como uma Nação, como um Estado, se não formos capazes de respeitar em cada um a dignidade que o todo tem. Cada um de nós, indivíduo, e, por isso, aquela professora de Mangualde, transporta em si a dignidade que, como Povo, temos. Não respeitar cada um de nós é uma falta de respeito a todo o Povo Português.

Ao tratar os seus cidadãos deste modo, o Estado é uma besta. Só uma besta não tem respeito pelos valores da dignidade humana. Só uma besta não tem alma. Só uma besta, por isso, não é capaz de sentir comiseração por um ser a caminho da morte. Só uma besta é capaz de tratar com tal bestialidade um cidadão. Só uma besta nega, a um canceroso em estado terminal, o recato da sua casa para os últimos sofrimentos. Só uma besta obriga ao trabalho quem, se por mais nada, por razões de enfermidade, seguramente já não é capaz de o executar com dignidade.

Mas é bom, se estamos de acordo com a opinião que aqui estou a exprimir, que olhemos à nossa volta. O Estado que nós, Portugueses, hoje temos é de uma crueldade inaceitável. Quem governa não se lembra, nem por um momento, que está a governar pessoas. Não se lembra que a única razão da existência de um Poder chamado Estado só faz sentido se esse Poder for usado para servir os cidadãos. Não se lembra que, apesar de ser governante, é igualzinho aos demais cidadãos. Com os mesmos deveres e os mesmos direitos dos demais e ainda mais um: o de ter que se empenhar num tratamento justo dos demais. Só isso justifica que se lhe tenha entregado a batuta do Poder. Se o Estado Português, cujo Poder é personalizado em quem nos governa, não é capaz de tratar os seus cidadãos com dignidade e respeito permanentes, então esse Estado não presta. E porque não presta, não tem razão de existir. Vale mais deitá-lo fora e passarmos a ser escravos de um outro Estado qualquer, daqueles que até os escravos tratam com dignidade.

Crónica A BESTA - Magalhães Pinto - "MATOSINHOS HOJE" - 7/1/2008

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