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3.1.08

MEMÓRIA

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Parecemos entalados num grande bico de obra. Olho em redor, a ver se enxergo saída, e fico com os olhos em bico. Não enxergo. A não ser uma luzinha, trémula, frágil, que vejo a bailar, bem lá no fundo, chama de vela em risco de se apagar definitivamente. O patriotismo. Será que ainda estamos a tempo de manter a chama acesa? Da independência às conquistas, da sueca ao futebol, sempre tem sido o patriotismo a dar-nos uma mão, a servir-nos de esteio, a ser remo da regata, vela do marear, a ser leme da rota. Será que ainda seremos capazes de chamar a Portugal a nossa Pátria? Será que, com todos os europeísmos, americanismos, pacifismos e globalizações, ainda somos capazes de sentir que somos tão bons como os melhores se a isso nos dispusermos? E que podemos ser independentes? Caramba! Também não somos tantos assim! Somos uma pequena cidade de Nova Iorque. Na cidade do México cabíamos todos quase duas vezes. Tóquio regurgitava das nossas fronteiras. E a coesão nos pequenos grupos é mais fácil. Patriotismo. Também na actividade económica. Porque é que nós, Portugueses, não "preferimos produtos nacionais", para usar um chavão? Será que só sabemos reclamar trabalho, benefícios, bem estar, sem nos recordarmos de que, quando estamos a consumir um produto nacional, estamos a dar trabalho a um português? Será que não assumimos, para além disso, que um dos cancros que nos mina é a fraude e que devemos unir-nos no combate contra esse flagelo? Como? Cumprindo, sem fraude as nossas obrigações, em primeiro lugar. Não permitindo sermos objecto de fraude a seguir. Exigindo ao que está ao lado de cada um nós um comportamento igual ao nosso. Denunciando, sem temor e sem hesitação, os que nela persistirem. E castigando exemplarmente os fraudulentos. Será que isso ainda será possível?

Excerto da crónica A FRAUDE - Magalhães Pinto - "VIDA ECONÓMICA" - 7/6/2004

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