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4.1.08

OS HERÓIS E O MEDO - 136º. fascículo

(continua)

Vende-te, negra. Pelo menos depende da tua vontade. Já não são outros a venderem-te. Dois escudos o minuto. É mais aluguer que venda. Que importa se, de senhor em senhor, continuas escrava? Vende-te, negra. Em série, como em Lisboa. Nesse aspecto, negra, já conquistaste a tua carta de alforria. Gostava de saber se também tens que ir ao exame sanitário todos os meses. Provavelmente não. Na guerra não se limpam armas. Vende-te negra. Quantos filhos terás, negra? Aqui não há camisas para impedir a gravidez. Nem acredito que tenhas ouvido falar de Ogino. Quantos pais terão os teus filhos, negra? Vende-te negra. Um mérito, pelo menos, tens, negra. Alivias estes rapazes, na flor da idade, dos apelos duma sexualidade incontível. Talvez não saibas, negra, mas, sem ti, esta juventude ia passar dois anos a acumular taras e recalcamentos. Que grande papel social desempenhas, negra. Acho que as mulheres lá da Metrópole te ficam a dever um grande serviço, que nenhuns vinte pesos são capazes da pagar.

(continua)

Magalhães Pinto

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