(continuação)XVIII
António Soveral estava mais uma vez preocupado. Sobravam-lhe razões para isso. Da Metrópole chegara a notícia de que a filha tinha ido prestar declarações à PIDE. Não ficara detida. Mas tinham-na fotografado e tirado as impressões digitais. Sinal evidente de ter ficado com ficha aberta. Daqui para a frente estaria sob vigilância. Não a tinham maltratado. Presumivelmente, por saberem de quem era filha. Tinham-na prevenido ser conveniente deixar as companhias com as quais andava, nada aconselháveis. Melhor seria não estragar o seu futuro, como ia acontecer com aquele rapazote seu conhecido, o José Antonio. Como era a primeira vez que o apanhavam, não ficava preso. Mas ia deixar de estar esperado pela tropa. Já não iria concluir o curso superior sem antes ir fazer o serviço militar. E, dados os antecedentes, o mais certo era ir imeditamente para uma província ultramarina. Os tempos eram difíceis para a Pátria e não podia haver contemplações com quem não entendia as dificuldades. Não era admissível andarem alguns a flanar, enquanto tantos bons portugueses morriam no mato, em luta contra meia dúzia de renegados e alguns mercenários estrangeiros. A boa notícia, para Soveral, era ter Amélia conseguido destruir, na quinta e tal como aconselhara, os papéis comprometedores encontrados no carro da filha.
(continuação)
Magalhães Pinto
Sem comentários:
Enviar um comentário