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13.1.08

OS HERÓIS E O MEDO - 145º. fascículo

(continuação)

Isso, chama-lhe exercício. Com as cartucheiras cheias de balas a sério e granadas penduradas nas bandoleiras. Em Santa Margarida as balas eram de pólvora seca e as granadas não explodiam. A tua ingenuidade, Cunha, parece ser maior do que dos meus companheiros. Será que pretendes mesmo enganar ou estás só a pretender acalmar alguns receios, capitão? E essa de tratar bem os negros é mesmo para valer? Ajudas-me a distinguir os bons dos maus? Dava um grande jeito ter aqui um PIDE a ajudar. Eles sabem sempre distinguir uns dos outros. Para ti, capitão, parecem todos bons. Isso não me dá confiança nenhuma. Que palhaçada é esta? Nas guerras há sempre uns de um lado e outros de outro. Já era assim na primária, quando os da minha classe jogavam às guerras com os do professor Marques. O objectivo é simples, aniquilar o outro antes de que ele te aniquile a ti. Mas aqui, como é que vou distingui-los, meu capitão? Será que ao tratar bem algum deles não estou a aumentar as condições para, um dia destes, um balázio por ele disparado me levar desta para melhor? Olha para eles, para os teus homens. Parecem estar todos a perguntar o mesmo. Não consegues ler o mundo de interrogações a borbulhar no seu espírito, capitão? Quantos estarão a pensar nos pais neste momento? E nas namoradas? E nos filhos, os mais precoces? Julgas que é só pegar neles, levá-los para uma carreira de tiro com alvos humanos e gritar fogo? Julgas? Todos eles sabem que quem mata também pode morrer, capitão. E se morrer algum deles, não achas ser um crime morrer assim, na flor da vida? E não me venhas com essa parlapatice da Pátria outra vez. Eles são a Pátria, capitão.

(continua)
Magalhães Pinto

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