(continuação)O Uíge preparava-se para largar. Tinham saído, ainda era noite, de Santa Margarida. O comboio trouxera-os directamente até Alcântara. Do lado de fora das grades do porto, um pequeno grupo de jovens segurava um cartaz onde se lia "Nem mais um soldado para o Ultramar". José António e Rafaela faziam parte do grupo. Não estiveram ali muito tempo. A polícia encarregou-se de os dispersar. Teimosos, regressavam. Para serem corridos de novo. Os militares, aqueles cujos familiares queriam beber o fel da separação até à última gota, tiveram ainda oportunidade de uma última palavra, de um último abraço, de um último beijo. Para alguns deles – quais? – aqueles beijos seriam os últimos até à eternidade. Mário e Álvaro não tinham ninguém a despedir-se deles. O primeiro porque não quisera e proibira terminantemente a família de ir à despedida. O segundo porque não tinha quem lá fosse. Os cuidados do irmão ocupavam a mãe, agora com ele ausente. Os outros, os que tinham família consigo naquela hora, pareciam ilhas de tristeza rodeadas de gente por todos os lados.
(continua)
Magalhães Pinto
Sem comentários:
Enviar um comentário