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7.12.07

OS HERÓIS E O MEDO - 108º. fascículo


(continuação)

Quanta bravura, lealdade e fidelidade caberá em seiscentas águias? E em mil e oitocentas cabeças? Esta das três cabeças só por piada. Num país onde ninguém pode ter sequer uma, logo uma águia com três. Em terra sem cabeças, quem tem uma é rei. Quem tem três deve ser para aí imperador. Imperador da Guiné. Com olhos negros, como diz o Manel. Que monotonia, águias negras com olhos negros. Se fosse eu a criá-la, tinha-lhe dado olhos vermelhos, de sangue. Ou raiados, de tanto chorar. Quem me dera ser águia. Podia levantar voo e fugir daqui. Podia sobrevoar as montanhas do meu país. Seriam meus os grandes espaços de liberdade, tranquilos, sem armas nem guerras, sem granadas nem minas, sem barcos que arrancam raízes. Que grande é o barco visto daqui. Antes de ser soldado, tenho que ser marinheiro. Aposto que vou enjoar. A única vez que andei de barco foi para atravessar o rio Douro. Quando é que foi isso? Ainda fui com o pai. Era muito pequeno. Para que é que eu cresci? As crianças não deviam crescer. Tal e qual como as flores. Quando são grandes, fazem-lhes isto. Arrancam-nas da terra e transplantam-nas. Nem reparam que ainda estão viçosas demais para mudarem de jardim. É. Agora percebo. Jardim à beira-mar plantado. Problemas da grandeza num povo nascido para ser marinheiro. Todas as províncias estão à beira-mar plantadas.

(continua)

Magalhães Pinto

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