(continuação)Os pensamentos de Mário foram interrompidos pelas vozes de comando. Firme!... Sent...op!.. Direita... er!... Em frente... arche!... O rufar dos tambores. A marcha militar, de novo. As botas, nessa altura ainda de sola, a baterem no empedrado, como se fossem um par apenas. Desarmados. A G3, companheira fiel de cada um deles nos próximos dois anos, não era para mostrar ali. Assim, a imagem a perdurar nos familiares pendurados na varanda do cais seria a de um passeio. Um cruzeiro para gente com sorte, diziam. Os soldados desfilaram em frente das autoridades. Em Lisboa, as autoridades tinham direito ao primeiro desfile, antes de milhões de desfiles nas picadas de África. Sorte. De empedrado, o chão não podia esconder minas. Ao fundo, entrada no barco. Na rampa de acesso, os soldados pareciam insectos. Olhavam para trás e acenavam para alguém que não viam. Braços no ar como se fossem antenas. Ou lianas relutantes no desfazer do abraço. Até Mário acenou, apesar de saber não se encontrar, entre os assistentes, alguém das suas relações. Pareceu-lhe que todos correspondiam ao seu aceno. Provavelmente assim era. Dentro do barco, cada um procurou um local donde pudesse ver quem ficava em terra. Dentro em pouco, todas as amuradas do navio eram uma mancha contínua de fatos amarelados. Como os sorrisos dos mais optimistas. Na varanda, começavam a agitar-se os primeiros lenços brancos. Nas amuradas, também. Mais alguns longos minutos e foram soltas as amarras que prendiam o Uíge ao cais.
(continua)
Magalhães Pinto
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