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7.12.07

UM CONTO DE NATAL

- Mãe, o que é um conto de Natal?

A voz do miúdo soou, cristalina, na lúgebre semi-obscuridade da barraca. Sentada na cama, a dois passos dos tachos velhos e encardidos amontoados na placa a servir de fogão, a mãe fumava um cigarro. Parecia estar à espera de algo que nunca chegaria. O miúdo, com evidentes sinais de mal-nutrição, tinha nos olhitos encovados um sorriso maroto escondido, Dois pingos de muco límpido, a começarem a secar nas margens, escorriam do narizito, até se perderem nos lábios entreabertos que repetiam a pergunta:

- Mãe, o que é um conto de Natal?

A mãe olhou-o com os olhos baços. Já lá iam tantos anos! A avó costumava contar-lhe um conto de Natal todos os Natais. Nunca soubera aonde ia a avó desencantar todas aquelas histórias. De estrelas a brilhar e reis vindos não se sabe de onde, para darem aos meninos nascidos pobres as riquezas mais inimagináveis. De neve a cair sobre corpos semi-nus, subitamente cobertas por casacos de pele, em estranhos milagres. De pinheiros cobertos de bolas rutilantes e pejados de presentes aos pés. De jantares repletos de saborosas iguarias. Como estava longe, já, tudo isso! E como tinha o sabor de um mundo perdido! Não soubera escolher os caminhos. A malta. O Carlos. As noites perdidas. O abandono da casa paterna. A droga. O resvalar da autoestima. O filho. O Carlos na prisão, por tráfico. Sem formação. Sem trabalho. O estender da mão à caridade, filho pela outra mão. A custo, aquela barraca de tabiques mal justapostos, pedaços de espuma sintética a taparem as frinchas. A fome. O recurso ao Centro de Recuperação, num momento de lucidez. A D. Celeste e o seu imenso amor a produzirem o milagre. A libertação do mal. Felizmente, não tinha chegado a atingir os últimos patamares da escada, de onde já não há subida possível. A voz do miúdo a insistir:

- Mãe, diz lá, o que é um conto de Natal?

Já não havia Natais. Pelo menos para eles. O Natal era uma invenção dos ricos, dos felizes, para atirarem com a sua felicidade à cara dos outros, dos pobres. Era um pretexto para as casas de comércio fazerem mais negócio. Com o dinheiro gasto numa só dessas casas, em mil e uma bugigangas sem utilidade alguma, eles - ela e o filho - poderiam comer um mês inteiro. Assim, tinha naquela noite, um pedaço de arroz e umas aparas de carne que o homem do talho, lá em baixo, na vila, lhe havia dado. O Natal era uma ideia sem utilidade. Sem sentido. Sem amor. Sem outros. Cada um consigo próprio, apenas. Solitários a fingir de solidários.

- Ó mãe, não queres dizer-me o que é um conto de Natal?

As vozes, vindas do exterior da barraca, pareciam uma resposta longínqua ao miúdo. Bateram na porta improvisada. O miúdo parou de brincar com as cápsulas de coca-cola apanhadas junto ao bar da praia no último Verão e, desde então conservadas religiosamente, como um tesouro imperdível. Olhou a porta. Olhou a mãe. Esta levantou-se, dirigiu-se à porta, levantou o trinco e olhou, interrogativa, o casal postado do lado de fora. Já não eram novos.

- A nossa filha morreu este ano, num acidente de automóvel. E nós queríamos que viesse cear conosco porque estamos sós…

Mais tarde, já de madrugada, depois de o mesmo casal ter vindo trazê-la, no seu automóvel, até à estrada que passava lá em cima, deitada no catre, ao lado do filho abraçado a um homem-aranha feito de uma matéria plástica qualquer, colocou uma mão por sobre as mãos quentes do miúdo, enquanto lhe dizia, baixinho:

- Agora já sabes o que é um conto de Natal…

Magalhães Pinto - 2002

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