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9.3.08

OS HERÓIS E O MEDO - 197º. fascículo

(continuação)

Curioso! Pode-se fazer a guerra inteira sem comer, sem copular, sem rir ou sem chorar. Mas não se pode fazer uma operação sequer sem um bom abastecimento de água. A boca adquire rugosidades desconhecidas. A língua enrola-se no palato. A garganta arde como lenha. O cérebro embota-se na ideia fixa de torrentes cristalinas. O tempo alonga-se insuportavelmente. A distância ganha dimensão de infinito. A arma, segura e fiel companheira dos momentos de perigo, torna-se um objecto supérfluo e incómodo, que apetece deixar encostado a um mangueiro qualquer. Os ombros curvam-se no vão intuito de equilibrar o peso das rações de combate armazenadas na mochila. Os pés deixaram de sentir, há muito, as irregularidades do caminho, anestesiados na fogueira infernal das botas de lona e borracha. E andam. Andam sempre. Devorando, insensivelmente, a picada, a bolanha, a selva, a savana, o mato, passos a fio com rumo certo, com ritmo certo, com pisar certo, máquinas de caminhar, papa-léguas à velocidade cruzeiro de uma por hora. Quantas pessoas estarão no cinema, a esta hora, em Lisboa? E a fazer amor? E a comer? E a beber? Imaginarão elas o que é esta sede que nos consome?

(continua)

Magalhães Pinto

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