
(continuação)
XXIV
Naquela tarde em que as colunas dos Águias se dirigiam para Morés, Rafaela e José António encontravam-se numa pensão em Bragança. Para um derradeiro encontro de amor antes do rapaz partir para o Ultramar. A recruta durara dois meses, tinha sido classificado como atirador, no posto de soldado. E imediatamente mobilizado. Ia para a Guiné. Para preencher a vaga deixada por um morto.
O primeiro impulso de Rafaela foi incitá-lo a fugir. Afinal, não tinham conta os jovens a fazer o mesmo, todos os dias. Emigrando clandestinamente para França ou para outros países. A Rádio Moscovo fartava-se de dizer ser esse o único caminho para a juventude portuguesa, se quisesse sobreviver. E não se ouvia também aquela rádio, em Marrocos ou na Argélia, a dizer o mesmo? A gritar que a guerra era injusta? Que os povos tinham direito à autodeterminação? Claro que tinham, concordava José António. Mas fugir não era solução. Não eram só os povos das colónias a precisar de autodeterminação. Também em Portugal ela era necessária. E, se todos fugissem, quem ia lutar por ela? Olha à tua volta Rafaela. Não podemos falar, não podemos pensar sequer. Não podemos decidir do nosso destino. Há quem pense por nós, reduzidos que estamos a ser simples executantes da vontade de uns quantos, poucos. Que são eles mais do que nós, Rafaela? Cérebros de ouro contrapostos aos nossos, de latão. Claro, alguns fugiram mais por medo do que por convicção da injustiça da guerra. Faço uma aposta contigo. Quando isto virar, vão ser heróis por não terem pactuado com o regime. E, afinal, a heroicidade deles foi feita de cobardia. Foram fazer a guerra para um sítio onde as balas não chegam. Virão depois, inchados, contarem-nos terem sido do contra. Reivindicarão, por isso, um estatuto especial. Erguerão os punhos, afirmando terem sempre desejado a morte dos ditadores. Muito fácil fazer isso, instalados aonde o sacrifício não chega. Bebendo um refresco numa esplanada qualquer dum país civilizado. É muito fácil. Sabes, Rafaela? De algum modo, são mais dignos de apreço os que se vão à guerra. Esses, pelo menos, pensam estar a defender a sua Pátria. Errado, pois claro. Mas como podem eles saber que isso é errado. Dizem-lhes: a Pátria é una, de Minho a Timor. Como podem eles saber que não é assim? Quem lhes disse? Quem os ensinou? Quem lhes fez ver que um povo, qualquer povo, incluindo o nosso, tem direito a dizer o que quer para si? Podem estar enganados nos motivos. Mas não estão enganados na atitude. Os outros, os fugitivos, estão certos nos motivos. Se os motivos são os contados. Mas estão errados na atitude. Os de África defendem aquilo que lhes ensinaram ser a Pátria. Os outros defendem, em primeiro lugar, o físico. De algum modo, colocam a nossa bandeira no chão e limpam nela os calcanhares. Defender a Pátria é belo, Rafaela. A Pátria somos nós todos, não só os de hoje mas também os de ontem e os de amanã. Os soldados que estão em África não têm culpa. Dois e dois são cinco, disseram-lhes. E não quatro. Não admira não saberem a tabuada. Mas tentam fazer a conta. Os outros, os que fogem, Rafaela, nem nos motivos estão certos se foi por medo que fugiram. Não passarão de cobardes, por mais heróis que venham a ser no futuro. Os primeiros, os que vão à guerra, defendem um conceito belo, embora errado nos seus fundamentos. E, sobretudo, arriscam muito para defender esse conceito. Arriscam a Vida. Passam sacrifícios sem conta nem medida. São generosos na atitude, embora limitados no julgamento crítico que fazem. Esta geração, Rafaela, pode ser bastante inculta, sobretudo em conceitos de liberdade. Mas não tem culpa disso. O que fica, verdadeiramente, é a sua extraordinária generosidade. É a sua disponibilidade para o sacrifício em nome de um conceito belo. Defender a Pátria. Um dia, quando voltarem, para os que voltarem, o pior agradecimento que se lhes pode fazer, pela sua generosidade, será tentar demonstrar que a ausência de espírito crítico sobreleva a sua atitude generosa. O mesmo se passa com os que tentam mudar este estado de coisas, Rafaela. Os combates travam-se no local de batalha. Não é a milhas de distância, no conforto dum refúgio. Chamam-lhe exílio. Fracos exilados, que não encontraram força para confrontar o inimigo quando podiam fazê-lo. Quantas pessoas podem ouvir as suas palavras, perceber os seus pensamentos? Mil? Dez mil? Rafaela, isto só lá vai quando tivermos ensinado a muitos milhões haver um mundo diferente, mais digno, para as pessoas. Os exilados podem vir a ser heróis. Heróis do medo, direi eu. Uma heroicidade cuja cobardia se esconderá no fulgor do seu regresso do exílio. Dourado. Olha para mim. Acho que me aconteceu o que devia acontecer. Vou, como soldado, para o meio do meu povo em armas. Vou ter oportunidade de conversar com muitos. De lhes mostrar a verdade. Aquilo que estão a fazer não está certo. Vou apontar o dedo. Lá, no sítio onde as coisas erradas acontecem.
(continua)
Magalhães Pinto
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