(continuação)Os olhos de José António brilhavam com entusiasmo. O espírito de missão estava estampado neles. Rafaela olhava-o, embevecida. De repente, o termo rebeldia ganhava uma dimensão nova para ela. Uma dimensão mais inteligente. Perdia em atitude o que ganhava em ideal. Percebia que, afinal, José António e o pai não estavam assim tão longe um do outro. Porque se fazia, as razões do acto, passava a ser mais importante do que aquilo que se fazia, o acto em si próprio. Chegou-se a ele, com ternura, meigamente. Acariciou-lhe o rosto. Aproximou a boca, lentamente, da dele, enquanto lhe desabotoava a camisa da farda. José António deixou-se escorregar na cama, onde tinham estado sentados, até ficar completamente deitado, de costas. Rafaela continuou, docemente, a desembaraçá-lo da roupa, enquanto a sua boca iniciava um longo passeio pelo corpo amado. Sentindo as mãos de José António, feitas concha, a acolherem os seus seios. Inebriada, o longo beijo de Rafaela foi-se alongando por vales e colinas, descobriu equadores, atravessou florestas, aprisionou o senhor tornado altivo pelo desejo. No turbilhão das sensações, José António retribuía as carícias. As suas mãos eram exploradores activos de segredos ainda por descobrir. E a sua boca uma sombra a deslizar, suavemente, na penugem do corpo da jovem. Deleitado, saboreou sumos a saberem já aos trópicos. Prosseguiram, os dois, em uníssono, a viagem em direcção ao ponto onde nasce a luz, onde todas as estrelas explodem, num fogo de artifício feito de todas as cores do arco-íris. Os corpos revoluteavam sobre a cama como vagas crescentemente mais vivas de um mar a cada momento mais tempestuoso. E a posse que transforma o senhor em escravo aconteceu. A atmosfera, meio na penumbra, do quarto encheu-se de notas musicais, numa sinfonia de gozo e paixão. Cuja nota final, longa, demorada, libertadora, ficou a ecoar no ar até descida a noite. Como um longo adeus.
Daí a três dias, que mobilizado do contra não tem direito a férias, José António embarcou num avião militar, com mais vinte. Iam todos substituir mortos em combate. Destino: Guiné.
(continua)
Magalhães Pinto
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