(continuação)
Fiquei longamente em silêncio, Maria do Céu, quando o juiz perguntou o que me eras. Tinhas sido uma estranha. Tinhas sido uma noiva. Tinhas sido uma esposa. Mas nenhuma dessas situações definia bem o meu sentir em relação a ti, Maria do Céu. Sentia como se fosses parte de mim. Como se fosses carne da minha carne. Como se fosses... Tive medo de o admitir, Maria do Céu. Será que todo o tempo, sem o pressentir, te tinha amado como um pai ama um filho? Adoptivo, pensei com amargura. Não respondi ao juiz. Acho que não sou capaz de responder, Maria do Céu...
O juiz desfez o impasse, ditando para a acta. Aos costumes, disse nada. Pela primeira vez, estive de acordo com ele. Não queria desvendar nenhum dos meus costumes com ela. O costume, entre mim e Maria do Céu, era algo para ser guardado nos templos das nossas relíquias, meu e dela. Não era para ser exposto em público, como as flores numa praça, a maior parte belas mas algumas já murchas.
(continua)
Magalhães Pinto
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