(continuação)
Levantou-se aquele tipo miudinho lá do canto. Porque é que estão todos vestidos de preto? Não vêm que só eu tenho porque estar de luto? Morreu-me uma pessoa querida. O miúdo tinha o aspecto de chefe de repartição. De vez em quando espetava um dedo para mim. Claro que fiquei calado nos interrogatórios. N‹o tenho nada a explicar. Fui eu que levei Maria do Céu a fazer o desmancho? Pronto, fui, que querem, não gosto de putos. Fui, fui eu a fazer tudo. Fui, fui eu a comprar as laminárias e a introduzir-lhas. Não, não... não fui eu mesmo à farm‡cia. Já nem me lembro qual foi. Foi na baixa. Gratifiquei um cauteleiro para mas ir comprar. Sei lá quem é o cauteleiro. Sabia sim, sabia o que estava a fazer...
Não te aborreças, Maria do Céu. Mas, no tribunal, decidi assumir eu toda a responsabilidade pelo sucedido. De nada valia estar a embrulhar mais pessoas no nosso caso. Já viste, o médico também iria preso. E, depois, quem valeria a pessoas com problemas semelhantes aos nossos, Maria do Céu? AlŽm disso, Maria do Céu, se eu, naquela noite, te tivesse dito quem era o pai do teu filho, não se teria evitado tudo isto? O maior responsável por tudo fui eu, minha querida. Não como eles julgavam saber, mas dum modo apenas conhecido por ti e por mim. E o meu cansaço, Maria do Céu? Estava tão cansado. Ainda estou, embora pense ter chegado a altura de descansar um pouco, logo que acabe de falar contigo.
(continua)
Magalhães Pinto
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