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5.8.07

A DUVIDA - 146º. fascículo

(continuação)

Pareceu-me estarem todos desanimados. Provavelmente, esperavam a minha negação para aquilo de que me acusavam. Tinha sido tudo muito rápido. Era como se lhes furtasse a oportunidade de justificarem o salário daquele dia. Homicídio involuntário, mas culposo. Um?... Está enganado, senhor juiz, foram dois. O defensor oficioso era o mais satisfeito. A minha atitude tinha-lhe evitado uma carga de trabalhos. O escrivão também, a acta ia ser pequena. O chefe de repartição fartou-se de desancar a minha falta de sentimentos, a minha incapacidade para assumir responsabilidades, a minha pusilanimidade. Chamou-me homicida algumas vezes. De Maria do Céu. Nem por um momento se recordou do filho dela, por mim também assassinado. O meu defensor perorou longamente sobre as fraquezas da natureza humana e a compreensão que elas mereciam. Os outros, os resistentes a essas fraquezas, tinham o dever de ser indulgentes e magnânimos para os que cediam a elas. O tribunal, impoluto e justo, deveria aliviar-me a expiação do meu crime.

Uns dias depois voltei àquela sala. Para ouvir o juiz condenar-me a doze anos de prisão maior, pena agravada pela frieza da minha personalidade, pela crueza dos meu crimes. Tinha ofendido o previsto não sei em que artigos duma quantidade de códigos. Olhei os presentes sem os ver. Só via os livros poeirentos em cima das mesas, provavelmente onde se encontravam os meus ofendidos. Apenas uma atenuante, a minha confissão espontânea.

(continua)
Magalhães Pinto

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