(continua)
Frieza, Maria do Céu... Aquele juiz teve o desplante de me agravar a pena devido à frieza do meu comportamento. Se não fosse estar tão cansado, teria desejado a tua presença ali, Maria do Céu, para lhe dizeres se alguma vez o meu comportamento contigo foi frio, foi cru. Que sabia ele, minha querida, das nossas razões? E, mesmo se lhas contássemos, como iria ele compreender a profundidade do drama por nós vivido? Precisava ser um deus, para o saber, e não estar apenas sentado num plano superior, a imitá-lo. Como poderia ele entender que um homem estéril, falhado, incapaz de gerar uma célula só que fosse, como contribuição sua para a continuação da humanidade, se interessasse por uns olhos lindos, perdidos num enxame de borboletas? Ele, provavelmente um pai feliz, com um rancho de filhos a jantar à sua volta, à noite? Como poderia ele entender a forma irregular da alma duma mulher, agredida, fome saciada em mil refeições de vilipêndio, joguete de razões deformadas, de sentimentos distorcidos, de vontades traduzidas em notas de contos de réis? Ele, provavelmente a sustentar uma mulher bem comportada para que ela tomasse conta dos filhos e fizesse o jantar? Como podia ele entender que uma mulher não quisesse gerar um filho cujo pai não sabia quem era? Ele, que saberia muito bem, ou julgaria saber, quem era o pai dos filhos todos da sua mulher? Absurdo, tudo absurdo. Não me condenaram pela minha verdadeira falta. Ter-te amado como se fosse teu amo e senhor execrável. Ninguém é dono de ninguém, nem mesmo por amor. Nem mesmo dum filho saído da nossa carne, quanto mais dos outros. E ainda me atenuaram a pena pela única e grande mentira por mim contada no tribunal. Não é que tenha grande importância tudo isso, Maria do Céu. Eu só queria tudo aquilo terminado. Mas eu, apenas eu, sabia, Maria do Céu, ser também a ti que estavam a condenar. Sem razão, minha querida.
Alguns dias depois, fui transferido para a cadeia na qual iria cumprir a minha pena.
(continua)
Magalhães Pinto
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