(continuação)
Porque sou dotado de sentimento, Maria do Céu, sinto. Amo. Odeio. Rio. Choro. Passo do riso às lágrimas e volto entre cada pestanejar, às vezes sem usar a razão para saber porquê. Porque sou dotado de sentimento, emociono-me. Irrito-me. Acalmo-me. Entristeço-me. Apavoro-me. Encorajo-me. Tudo reflexamente, num mecanismo onde o pessoal é a roda mestra, numa demonstração insofism‡vel de que o sentimento é próprio de cada um. Sou dotado de sentimento e, por isso, reajo, impulsivamente, quase irracionalmente, aos estímulos mais comezinhos e estimulo racionalmente as reacções mais impulsivas, mais primárias. Sou herói ou sou cobarde. Grande responsabilidade esta, a de sentirmos, Maria do Céu. Porque trazemos conosco, desde que nascemos, a marca indelével do sentimento, estamos impedidos - ou devíamos estar - de não saber distinguir o Bem do Mal. Seja qual seja a máscara usada por qualquer deles. E eu não soube distinguir, Maria do Céu! Que fiz do meu sentimento? Em que escaninho da alma o deixei criar fungos, em geração espontânea e caótica?...
Porque possuo uma vontade, quero. Ou simplesmente desejo. Forço. Insisto. Persisto. Mudo o curso dos acontecimentos sempre que tal me dá na gana, real ou plebeia. Faço dum rio um lago e do lago extraio um rio. Transformo uma floresta num deserto e crio no mais árido deserto a campina mais verdejante. Possuo uma vontade e com ela rasguei as fronteiras da terra antes do século um, as do mar no século quinze e as do espaçoo no século vinte. Não tardarei a destruir as fronteiras do tempo. Possuo uma vontade. E por força dessa vontade, modifico. Construo. Destruo. Desfeio. Embelezo. Crio. Faço duma semente uma planta, da planta um fruto e com o fruto sacio uma fome. Por força dessa vontade, transcendo-me, aproximando-me dum espírito supremo, ou degrado-me, aparentando-me aos irracionais. Sou dotado duma vontade. Que me pode conduzir a sacrifícios supremos para salvar uma só vida e levar-me ao sacrifício de cem mil vidas num momento, como fiz no holocausto de Hiroshima. Que grande responsabilidade essa de sermos senhores todo poderosos duma vontade, Maria do Céu. Porque a temos - ou devíamos ter - estamos impedidos de usar a desculpa do foi sem querer. Nunca é sem querer, Maria do Céu. E, no entanto, chego ao fim da nossa jornada com a certeza de muita coisa ter acontecido sem querer, mas não fortuitamente. Que fiz da minha vontade, Maria do Céu? Em que curvas da minha viagem a deixei ficar perdida?...
(continua)
Magalhães Pinto
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