(continuação)
Essa devia ser a minha felicidade e a minha responsabilidade, de mãos dadas: ser provido de razão, de sentimento e de vontade, Maria do Céu! Felicidade, porque isso me libertaria do nada e me colocaria a meio caminho do tudo, semi-deus deixado de ser coisa. Felicidade, porque isso me superiorizaria, me arrancaria, ainda que parcialmente, à subordinação natural. Infelizmente, felicidade incompleta, como todas as felicidades! Porque indissolúvelmente unida ao resto de mim que não passa de animal, não me deixou ir além da metade do caminho, irredutível barreira, apenas transponível pela iluminação da razão, pela sublimação do sentimento, pelo reforço da vontade. Tudo coisas que, em ti e em mim, Maria do Céu, não aconteceram! Felicidade incompleta, a impedir-nos não só de ir mais além e a barrar-nos a chegada ao tudo, como, mil vezes pior, nos reconduziu ao nada.
A nossa razáo errou, o nosso sentimento adormeceu, a nossa vontade vacilou. Não em potência, que tudo tínhamos sem limites! Mas no comportamento concreto, onde os limites são ilimitados. Éramos capazes do pensamento perfeito, do sentimento correcto, da vontade infinita. Mas erramos! Sobretudo, Maria do CŽu, errei! Não serei capaz de dizer onde e como, talvez não. Mas errei. O meu comportamento contigo deveria ser a execução voluntariosa duma escolha racional joeirada pelo sentimento. Mas nada poderia falhar! Deveria a razão não errar, o sentimento não adormecer, a vontade não vacilar. E bastaria, como bastou, uma só dessas parcelas ser negativa ou, pelo menos, nula, para a operação ter, como teve, resultados absurdos, matematicamente inalgebricos, trágicos.
(continua)
Magalhães Pinto
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