(continuação)
Conduzido por este caminho, chegado pela estrada da dúvida ao entroncamento da verdade, não me é lícito pensar nada terem a ver comigo os olhos chorosos, angustiados, suplicantes ou acusadores duma mulher, qual criança desconhecida, que me miram, imóveis, do lado de lá da mesa ou nas páginas duma revista perdida. Não mais posso ficar-lhes indiferente!... Em primeiro lugar, porque fui eu, ser provido de razão, dotado de sentimento, senhor duma vontade, a depositar nesses olhos, cruelmente, as lágrimas e a angústia que deixam transparecer. Depois, porque é a mim, ser provido de razão, dotado de sentimento, senhor duma vontade, que eles açoitam, justa e impiedosamente, com as suas acusaões. Depois ainda, porque nem sequer me é desconhecida, essa mulher-criança. Se estiver atento, ao meu lado ela passa todos os dias, tantas vezes ao dia, ou rota ou esfomeada ou perdida ou temerosa ou, sequer, sequiosa duma gota de amor, de um pingo de atenção, varejada pelos encontrões dados pela minha distracção. Gota de amor, pingo de atenção, que te recusei, Maria do Céu, não obstante durante tanto tempo ter pensado o contrário! Só pensei em mim, nos meus anseios, nos meus objectivos, mais como se fosses a filha jamais tida, do que a mulher se calhar nunca como tal desejada!
(continua)
Magalhães Pinto
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