(continuação)
Que interesse tem aquilo tudo que estão para ali a dizer? Parecem os tubos negros dum orgão fúnebre, numa charangada de nota só. Não é nada comigo. Eu continuo a procurar uma razão justificativa para o juiz estar num plano superior. Tenho um palpite. Ele também pratica, na sua consciência, actos que, se conhecidos, seriam censuráveis. E seria então um cidadão como os demais. Assim, sem esse conhecimento, ele pode ser colocado num plano superior. Espécie de deus, todo poderoso. Apesar de o vermos em carne e osso, não está ao nosso alcance. É boa!... Se este, que vemos, não está ao nosso alcance, como pode existir um, invisível, ao alcance de toda a gente?
O juiz mandou-me levantar umas quatro vezes, antes de eu entender ser comigo. Monotonamente, fiz desfilar as informações que faziam de mim um cidadão diferente dos outros. O meu nome. Quantas pessoas haverá no país com um nome igualzinho ao meu? O juiz pensa estar a julgar-me a mim, mas, se calhar, está a julgar uma dúzia de pessoas com o nome igual ao meu. Os meus pais. Qual é o interesse? Já não são deste mundo, nem um nem outro! E que têm os meus pais a ver com isto? Esta história é só minha, entende, senhor juiz? Minha!... Bom, só minha, não, também é da Maria do Céu. Sabe quem ela é, senhor juiz? Sabe lá o senhor! Se a conhecesse, veria como vale a pena sofrer por ela! Se eu tivesse uma filha igual a ela, não sofreria menos. Está bem, eu calo-me. Não tenho idade, senhor juiz. Ou melhor, sou muito velho. O senhor nem imagina como eu sou velho! Ah!...moro para aí. Não, não sou... sim... não era casado com Maria do Céu. O que me era Maria do Céu... o que me era Maria do Céu... o que me era Maria do Céu...
(continua)
Magalhães Pinto
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