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3.8.07

MEMORIA


Dificilmente esqueceremos este ano, em que tanto Portugal ardeu. O drama de aldeias inteiras a assistirem, impotentes e num relâmpago, à destruição do trabalho de uma vida inteira, ficará, deve ficar, gravado na nossa alma, a fogo, para sempre. Não podemos esquecer-nos disto. Esquecermo-nos disto é esquecermo-nos de nós próprios. É esquecermos os nossos filhos. Aos quais doaremos menos do que aquilo que nos foi legado. Por incúria nossa. Por desmazelo sem nome. Por desinteresse que, quer queiramos quer não, sempre acabará por bater nas nossas cabeças.

Talvez agora, quando já não há remédio, a voz de tantos que, como eu, passam a vida a gritar que é necessário dar muito melhor aplicação aos dinheiros públicos, passe a ser mais ouvida. Talvez agora, quando já não há remédio, aqueles que, mesquinhamente, pensam que as opiniões de quem fala "contra" são motivadas por razões de política partidária, coloquem a mão na consciência e vejam que a razão é bem outra. Talvez agora, quando já não há remédio, aprendamos que só há uma maneira de este estado de coisas, que faz de nós um país desmazelado, ser alterado: com a nossa exigência recíproca, de uns para os outros e de todos para quem manda. Ou aprendemos a exigir que cada um cumpra o seu dever sem hesitações ou só podemos esperar cair no fogo do inferno social.

Perguntava um aldeão anónimo, em frente de uma câmara de televisão, porque é que havia dinheiro para mandar tropas para o Iraque e não havia para prevenir os fogos de Verão. Acho que esse aldeão colocou no ar uma pergunta crucial. Que não se aplica apenas aos incêndios. Uma pergunta que é esta: que raio de prioridades escolhem os nossos políticos? Deixamo-nos embalar por palavras doces, por promessas quantas vezes irreais, por paraísos que apenas existem em sonhos e antes de uma eleição qualquer. Quando o que devíamos fazer era dizer aos políticos - a todos os políticos: "Meus amigos, ou governam segundo os nossos interesses ou corremos convosco!".

É claro que há incêndios florestais, todos os anos, na maior parte dos países do mundo. Mas o que confrange, no nosso caso, é que, se os fogos ultrapassam a trivialidade do incêndiozito de mato, tudo parece estar descoordenado, tudo parece ficar numa barafunda, tudo parece estar a acontecer porque alguém quer que aconteça. E isto, mais do que os incêndios, é que leva ao desespero. O que mais me tem doído, nesta situação toda, é ver, tantas vezes, muitas mais do que seria aceitável, populações abandonadas a lutarem sózinhas para defender os seus haveres.

Temos que dizer, alto e bom som, que isto não pode voltar a acontecer. Temos que exigir que, para o ano, os incêndios têm que ser atacados com ordem, com capacidade, com eficiência. Nem que, para isso, tenham que ficar tropas em terra. Nem que, para isso, tenham que ser feitos menos dois ou três estádios de futebol. Nem que para isso, o Estado tenha que recusar ao Senhor Doutor Mários Soares umas centenas de milhar de contos para a sua Fundação pessoal. E, para que não nos esqueçamos de exigir isso, temos que deixar ficar, gravado a fogo na nossa alma, tudo aquilo a que temos assistido.

Crónica A FOGO - Magalhães Pinto - "MATOSINHOS HOJE" - 3/8/2003

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