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7.10.07

OS HERÓIS E O MEDO - 47º. fascículo

(continuação)

Não vou esquecer nunca os teus olhos naquele momento, Fátima. O teu olhar estuporado pela surpresa, consciência a recusar assumir-se consciente. As lágrimas a rebentar com a força do desespero contido. As mãos a retorcerem-se num gesto de impotência. Até que um soluço abafado soltou a incredulidade. Claro que podia ser. Sim. Mesmo depois de tanto tempo de tropa. Seriam mais dois anos a acrescer aos três já decorridos. Tentei consolar-te, encontrando forças não sei em que meandros da minha própria incredulidade. Ia correr tudo bem. E dois anos passam depressa. Dois anos.... Só então eu tomava consciência da dimensão do roubo em perspectiva do qual estava a ser vítima. Sabes?... Podemos casar já, se tu quiseres... Disse aquilo sem pensar, apenas movido pela vontade de te diminuir o sofrimento. Claro que querias... Mas, dentro de mim, agigantava-se uma interrogação. Estaria eu a convidar-te para que fosses mais uma viúva do meu país à deriva? Os sentimentos de culpa atropelavam-se em mim. Culpa por ser homem e, por isso, ter que ser militar. Culpa por ser português, não sabendo encontrar caminhos de paz para diferendos com outros. Era mesmo de português. A ira e a luta para resolver as pequenas coisas. Se era assim para as pequenas, como não haveria de ser para as grandes? Cheguei a sentir culpa por te ter escolhido tão cedo. Se tivesse sabido esperar, pronto, o problema era só meu. Assim, fazia-te participar dele com todo o teu ser. Semeador incompetente, havia lançado à terra, demasiado cedo, a semente do futuro. E agora, em lugar de colher a esperança a jorrar da tua alma, via florescer a planta daninha da angústia.

(continua)

Magalhães Pinto

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