(continuação)Tinham ido até à Foz. Fátima estranhara a sua disponibilidade para um passeio ao fim da tarde. Apesar de ser tempo de férias. Desde o regresso ao Porto, quando, instrução concluída, fora colocado no quartel da Arca d’Água, Mário retomara os estudos, interrompidos durante um ano. Sempre fora assim, com Mário. Trabalhando de dia, estudando à noite. Assim fizera a escola técnica, o curso médio e prosseguia, agora, em direcção à formatura. Não quisera beneficiar de adiamentos na incorporação. Se tinha que ser, melhor já que mais tarde. Mário não era o que se pudesse chamar um grande falador. Mas, mesmo assim sendo, Fátima estranhava o seu mutismo, mais profundo do que habitualmente. E pressentia algo de grave. Foram andando, ao longo do jardim do Passeio Alegre. Sentado no bordo do molhe que assinalava a foz do rio, um pescador, um só, olhava pensativamente a linha fugida da cana. Devia ter-se enganado na maré, que quando esta era de feição, o molhe estava coberto deles. Parecia estar muito longe dali. Porventura um pai com filho no Ultramar, pensou Mário. Sabes, fui mobilizado, dissera ele, quase num murmúrio. Sentiu estremecer a mão segura na sua. Não!... Sim?... Não!... Fátima recusava-se a acreditar. Durante dois anos e meio tinham vivido com a espada suspensa sobre a cabeça. Desde sessenta e um, raros eram os jovens escapados ao Ultramar. Mas, desde o fim das mobilizações desse ano, com Mário quase miraculosamente isento, haviam ambos acreditado ter passado o perigo. Por isso, aquela notícia, vinda agora, quando já inesperada, doía mais. Passou os braços em redor do pescoço de Mário e deixou-se ficar, por largos momentos, abraçada a ele, soluçando, como se pretendesse agarrá-lo e impedi-lo de partir. Mário permanecia silencioso. As palavras não valiam de nada, naquela circunstância. No seu espírito, agigantava-se a Ordem de Serviço daquele dia. Não a chegara a ver, mas podia reproduzi-la com fidelidade. Nos termos da Circular número qualquer, foi mobilizado o número qualquer, Mário Silva, para integrar o Batalhão de Artilharia número qualquer, devendo apresentar-se em Santa Margarida num dia que não era qualquer.
(continua)
Magalhães Pinto
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