(continuação)José António já estava perto do abrigo. Entre os dois, apenas o quadrado vazio duma parada, liso, sem defesas possíveis a não ser o solo, com cerca de vinte metros de lado. Delimitado por um pequeno muro, lá ao fundo, um pouco antes da entrada para o abrigo. Saltá-lo evitaria um círculo, muito mais longo e demorado. O rapaz esperou a explosão duma granada e correu para o muro. A descer, num assobio cada vez mais grave, vinha a próxima granada. Uma corrida que podia ser de vida ou de morte. A noite parecia estar suspensa de quem seria o vencedor. José António ou a granada? Chegaria ele primeiro ao muro ou a granada tocaria o solo antes disso acontecer? A vitória de qualquer deles seria por fracções de segundo, adivinhava-se. Já muito próximo do muro, José António formou o salto. Como intenção, colocar um pé em cima do muro e saltar para o outro lado. A entrada para o abrigo ficaria logo ali. Formou o salto previsto. Quando o pé ainda ia no ar, a granada de morteiro explodiu. Felizmente para ele, não naquela parada. Embora não muito longe. O berro da explosão sobrepôs-se à vontade do soldado. A perna direita, feita no salto para o muro, atiçada pelo medo, ultrapassou-o, na ânsia de chegar ao abrigo. O trambolhão foi inevitável. E a outra perna, impulso deficientemente calculado para o novo salto, arrastou-se dolorosamente pela aresta do muro. Esfolado do joelho ao tornozelo. Era o primeiro ferimento de guerra do homem que detestava a guerra.
(continua)
Magalhães Pinto
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