Há cem anos – celebrou-se no último Domingo – nasceu em São Martinho de Anta, concelho de Sabrosa, ali pertinho do Pinhão, um indivíduo do sexo masculino a quem foi porto o nome de Adolfo Correia da Rocha. Como todos os meninos, cresceu, estudou brevemente para padre e emigrou seguidamente para o Brasil, para trabalhar na cultura do café. Pobre, não tinha recursos para ir mais longe. Mas um tio “brasileiro” apercebe-se dos seus dotes de inteligencia e paga-lhe os estudos. Regressa a Portugal e, sempre financiado pelo tio, licencia-se em Medicina e estabelece consultório em Coimbra. Não consta que tenha enriquecido com isso. Nem poderia. Porque esse indivíduo tinha uma outra missão. Que realizou adoptando, como acontece muitas vezes nas artes, um pseudónimo. Viria a ser conhecido em todo o Mundo como Miguel Torga. Um dos mais brilhantes, lúcidos, elegantes e perfeitos autores da literatura portuguesa.Ler Miguel Torga é um prazer quase ilimitado. Muito do amor que tenho, eu próprio, pelo nosso tão belo idioma, a Língua Portuguesa, nasceu-me de ler Miguel Torga. Com ele, a palavra certa é usada para construir a frase lúcida e compreensível que embrulha um pensamento brilhante. Miguel Torga soube ver, como todos os autores, designadamente os poetas – como ele gostava de ser considerado – muito para além das aparências. E com acerada, embora compreensiva, luminosidade, usou o escalpelo da escrita para deixar, para a posteridade, um retrato fiel dos homens. Dos homens de todos os tempos. De todos os lugares. Embora, naturalmente, tendo por paradigma os Portugueses. Repare-se neste pedacinho da sua escrita:
"E passa um homem a vida neste Portugal a combater fantasmas! Nada de grande com que se lute e por que se lute. Tudo mesquinho, pequeno. Amizades que não valem a lança que se quebra por elas, doutrinas que não aguentam o embate duma discussão, ídolos que nem pés de barro têm. O espírito arremete, esforçado e generoso, e é vazio o que se encontra diante. Regam-se raízes secas, espremem-se consciências empedernidas, prega-se no deserto. É como se a gente gastasse as energias e a boa vontade a endireitar a sombra de uma vara."
Escrito em Coimbra, em 12 de Julho de 1957. Como podiam ter sido escritas ontem. As palavras de Miguel Torga não envelhecem.
Pois bem. Apesar de convidado, o Ministério da Cultura, à frente do qual está uma matosinhense – Isabel Pires de Lima – não se fez representar nas comemorações havidas em Coimbra. Argumentou a Ministra que estava de férias. Como se governante pudesse ter férias assim, como qualquer manga de alpaca. E sempre podia ter-se feito representar. Não faz mal. Dentro de meia dúzia de anos, só a família dela se recordará que foi Ministra de Portugal. Miguel Torga, esse, será eterno.
Crónica TORGA - Magalhães Pinto - "MATOSINHOS HOJE" - 14/8/2007
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