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7.8.07

A DUVIDA - 148º. fascículo

(continuação)

XXVI

Comecei esta minha conversa contigo, a última, Maria do Céu, com o propósito de censurar-te. Mas sinto agora, finda esta longa viagem pelo universo da nossa relação, que não posso senão partilhar contigo a responsabilidade pelo acontecido. A responsabilidade. Não a culpa. Culpa que tu também não tiveste. Como tu, Maria do Céu, eu sou humano. Tantos erros cometidos, Maria do Céu! A que não posso voltar as costas. Porque sou humano, sou erro, mas também sou responsabilidade. Como tu, eu sou responsabilidade. Porque sou provido de razão, porque sou dotado de sentimento, porque possuo uma vontade.

Porque tenho uma razão, penso. Raciocino. Separo. Comparo. Escolho. Junto. Elaboro. Posso passar do conhecido ao desconhecido, num processo de fabricação catalizado pela inteligência, onde o conhecimento antigo é a matéria prima e o produto é novo saber. Porque tenho uma razão, memorizo. Associo. Relaciono. Experimento. Meço. Peso. Prevejo. Concluo. Passo da hipótese à tese, num processo demonstrativo, onde o pessoal e o possessivo raramente se encontram. Sou provido de razão. Como tal, sei. Conheço. Percebo. Tremenda responsabilidade a nossa, esta de ter uma razão, Maria do Céu. Porque é assim, estamos impedidos de usar a desculpa da ignorância. Sabemos - ou devíamos saber - o que acontece, quando acontece, como acontece, onde acontece, porque acontece. Pena é só pensarmos nisso, a maior parte das vezes, depois das coisas acontecerem. Como agora. Que fiz da minha razão, na minha relação contigo? Em que canto escondido do meu ser a deixei quedar-se inerte?...

(continua)
Magalhães Pinto

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