A obra de Eugénio de Castro pode ser dividida em duas fases: na primeira, a fase simbolista, que corresponde a sua produção poética até o fim do século XIX, Eugénio de Castro apresenta algumas características da Escola Simbolista, como o uso de rimas novas e raras, novas métricas, sinestesias, aliterações e vocabulário mais rico e musical.
Na segunda fase ou neoclássica, que corresponde aos poemas escritos já no século XX, vemos um poeta voltado à Antiguidade Clássica e ao passado português, revelando um certo saudosismo, característico das primeiras décadas do século XX em Portugal.
Um soneto seu:
DEPOIS DA CEIFA
Em que emprego o meu tempo? Vou e venho,
Sem dar conta de mim nem dos pastores,
Que deixam de cantar os seus amores,
Quando passo e lhes mostro a dor que tenho.
É de tristezas o torrão que amanho,
Amasso o negro pão com dissabores,
Em ribeiros de pranto pesco dores,
E guardo de saudades um rebanho.
Meu coração à doce paz resiste,
E, embora fiqueis crendo que motejo,
Alegre vivo por viver tão triste!
Amor se mostra nesta dor que abrigo:
Quero triste viver, pois vos não vejo,
Nem sequer muito ao longe vos lobrigo.
1 comentário:
Eugênio de Castro, além do papel histórico que representou, qualificou-se como senhor de autêntica vocação de esteta da palavra, embora desamparada de sopros mais originais e mais amplos. À sua poesia, fidalga como ele, faltam as inquietações que fazem as grandes obras poéticas. Há nela um comedimento de raiz que não permite voos mais ousados, e que origina um lirismo bem comportado e aristocraticamente afetado. Não obstante essas limitações involuntárias (pois o poeta não é o que deseja ser, mas é o que é), e não obstante o isolamento em que se encontra relativamente às correntes literárias contemporâneas, logrou soluços felizes que tiveram carreira na poesia moderna. Este o seu mérito, para além de ter sido exímio versejador. O melhor da sua obra localiza-se em Constança e nos Sonetos Escolhidos (1946).
Cida
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