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9.3.11

MEMÓRIA

A GLOBALIZAÇÃO E A CULTURA

Aqui há meia dúzia de anos, num jantar semi-oficial em Moçambique, tive uma curiosa discussão com uma personalidade importante da cúpula político-económica daquele país. Então, Governador do Banco de Moçambique. A certa altura, fui surpreendido por uma afirmação sua, dizendo que a presença dos Portugueses em Moçambique tinha servido apenas para se apoderarem das riquezas do país. O meu orgulho pátrio, ademais de alguém que tinha feito a guerra colonial, sentiu-se beliscado. E perguntei-lhe se as estradas, as pontes, as escolas, as fábricas, as técnicas, não eram nada. A sua resposta foi imediata. Segundo ele, tinha sido o suor dos moçambicanos a construir todas essas coisas.

Isso levou-me a fazer uma afirmação rotunda, na qual creio quase religiosamente. Disse eu que os Portugueses tinham deixado aos Moçambicanos algo precioso. Algo que fará deles uma grande Nação. Tal como aconteceu com o Brasil. E Angola. E Guiné. E Timor. Os Portugueses fizeram aos Moçambicanos a dádiva suprema da sua Língua. Uma Língua clássica, bonita, eterna, a que os Moçambicanos, tal como acontece com os Brasileiros, saberão dar, no futuro, um acento muito seu, que a tornará ainda mais bela. E, sobretudo, que será o elemento central aglutinador daquele grande país, quase oito vezes maior do que Portugal Europeu. A Língua Portuguesa será, num futuro não muito longínquo, o abraço de todas as etnias que ainda têm. E, como lá, também na Guiné e em Angola. Como já está a ser em Timor.

A ideia que então exprimi, num arroubo de Portuguesismo sem vergonha, desempoeirado, ciente dos seus erros mas também das suas virtudes, essa ficou-me para sempre. A Língua é, a meu ver, o elemento étnico mais aglutinador de gentes que existe. Mais do que as tradições, as quais se perdem no tempo. Mais do que a vizinhança, que muitas vezes se volta as costas. Mais do que os interesses, que mudam de direcção quase com a frequência do vento. Hoje, cerca de duzentos milhões de pessoas falam a Língua Portuguesa no Mundo. Populações dispondo de territórios e recursos imensos, capazes de muito mais gente. Donde, um potencial de crescimento demográfico assinalável. Com um dado mais, para ilustrar o nosso pensamento. Hoje, também, as comunidades que falam português espalham-se por todo o Mundo, estão em cada recanto do planeta. Tolerantes. Pacíficas. Servindo ao enriquecimento de muitos países, com o seu labor. Uma força enorme. Económica. Social. Cultural.

Julgo que é nossa obrigação, de todos, no desenho que quisermos traçar do futuro, pensar no que fazer com essa força. Qual é o nosso papel - de todos os que falamos esta bela língua de Pessoa, de Veríssimo, de Pepetela - na estrada que, do passado, nos conduz ao futuro? Que vamos fazer do tesouro que nos foi legado? Como vamos, sobretudo, colocá-lo ao serviço das gentes?

Olhamos em redor e que vemos, desde que Hiroshima colocou um ponto final na História Moderna? O nascer de uma cultura alienante, padronizada, superficial, na qual os valores matriciais são a riqueza e o poder. Onde os valores morais se afundam. Não é por acaso que, nessa cultura, os homens são divididos em "winners" e "losers". Como se viver simplesmente uma vida cheia de dificuldades, uma vida de luta contra as adversidades, e saber conduzi-la, com dignidade, ao fim que todas as vidas têm, não fosse maior vitória do que o maior dos sucessos. As tendências de tal cultura, que se desenvolveram no interregno prolongado até Nova Iorque, no fatídico "11 de Setembro", vão acelerar-se, estão já a acelerar-se, naquilo que será, indubitavelmente, a História Post-Moderna. Não tardará que o Mundo inteiro esteja subjugado a esse novo esperanto que é a língua inglesa. E, com essa subjugação, serão muitos dos valores morais, espirituais, culturais, que enformam os povos que falam a Língua Portuguesa, a perder-se, arrumados nos arquivos apenas lúdicos da memória.

Eu sei que é difícil, muito difícil, lutar contra esta marcha, aparentemente inelutável, da História. Dirá alguém, com espírito mais prático e menos poético do que o meu, que não há outro remédio. Não seria compreensível que, naquilo a que se chama a "aldeia global", convivessem dezenas de culturas. Uma aldeias, uma cultura, parece ser o motu dos tempos que por aí vão. Vivemos num Mundo onde cada canto está à nossa porta. No espaço de breves minutos, posso ver que tempo faz em Pequim, qual é o programa do Moulin Rouge em Paris e ver duas torres a cair em Nova Iorque. A informação - antigamente apenas de alguns para alguns - é hoje de todos para todos. E gira à velocidade da luz. Bastam apenas algumas horas para um vírus informático, introduzido no circuito nos Estados Unidos, atingir milhões de computadores em todo o Mundo. Posso fazer compras em Taipé, na Florida, ou Círculo Polar Ártico, quase simultâneamente. Tudo em tempo real. E, se o produto comprado for intelectual, posso tê-la em casa naquele mesmo instante. As pessoas deixam-se apanhar no vórtice e, a certa altura, já não são os factos a girar vertiginosamente em redor das pessoas. Já são elas a girar vertiginosamente em redor dos factos. Já ninguém tem tempo para admirar um pôr do sol a pintar rubores em nuvens esparsas, ou para ver o vagaroso desabrochar uma flor, num sinal iludível de que a Natureza não alinha na vertigem global.

Este fenómeno, a que alguém chamou da globalização, trouxe consigo algumas virtudes. Alguns exemplos. A destruição da Amazónia já não é um problema exclusivo dos Brasileiros. Tem que ver conosco. Com todo o Mundo. A poluição gerada pela poderosa indústria dos Estados Unidos já não é apenas um problema dos Americanos. Tem que ver conosco. Os bens tornaram-se, subitamente, mais acessíveis e mais baratos, contribuindo para um maior bem-estar das pessoas. A ciência progrediu anos-luz em escassas duas décadas, devido ao rápido fluir do conhecimento. Estamos a meia dúzia de passos de poder vergar, perante o nosso querer indominável, as fronteiras to tempo. Já não se pode fazer uma guerra sem encontrar pela frente uma resistência tenaz das pessoas. A globalização trouxe consigo novos valores que, embora nos sejam estranhos, não deixam de ser valores. Seria loucura negar isso. Mas o que verdadeiramente importa é perguntar: a que preço? Economista por formação, não sou capaz de me divorciar da ideia base da economia, que me foi inculcada nos já longínquos anos de formação. Não sou capaz de julgar a valia de uma alternativa sem saber o preço a pagar por ela. O que, em termos económicos, quer dizer "sem conhecer os termos da alternativa ao que avalio". Mas, sempre que chego aqui nos meus pensamentos, sinto-me derrotado. Tarefa inglória! Nunca saberemos o preço a pagar pela evolução histórica, pelo simples facto de que em História, não é possível viver em alternativa e, em História, só vivendo sabemos o que pagamos. Mas algo fica. Mais como sentimento, como pressentimento, do que como conclusão lógica. Estamos a assistir à profunda desumanização do Homem. Estamos a assistir à destruição sistemática daquilo que fazia de cada um de nós uma criatura única da natureza.

Muitos dirão, chegados aqui, que já temos especulação intelectual que chegue. Mas eu acho que ainda falta analisar uma ideia. Será que não podemos compatibilizar o que parece ser um destino inelutável com o aproveitamento das forças que, por sermos diferentes, temos? Será que temos que afogar-nos, anonimamente, no mar dos milhões de milhões cada vez mais parecidos conosco? Ou com quem nos parecemos cada vez mais, o que dá no mesmo? Numa amálgama cultural em que, por não existirem diferenças, nos tornamos insensíveis ao próximo. Só nos sentimos a nós. Será que não temos a obrigação de preservar a nossa cultura, nós, todos aqueles que, quer queiramos quer não, trazemos na alma, desde os fenícios, os gregos, os cartagineses, os romanos, os árabes, os tupi, os manjacos, os maconde, um modo próprio de ser e, sobretudo, de estar? Será que não devemos utilizar a força imensa da nossa cultura comum para não nos perdermos na vala comum? Será que, se nada fizermos, no fim teremos apenas um imenso vazio cultural, isto, é, cultura nenhuma?

Se eu tenho razão, então muita força havemos de fazer para preservar a nossa cultura. Uma cultura assente na Língua Portuguesa. E não se me chame chauvinista. Tenho plena consciência de que a cultura assente na Língua Portuguesa extravasa, em muito, a elaborada por este pequeno povo acantonado na extremidade ocidental da Europa. Por força de um destino comum, essa pequena cultura inicial colheu matizes de tantas outras civilizações que a engrandeceram, que a coloriram, que lhe deram relevo. Por força de uma saga da qual todos os que falam Português seguramente se orgulham, essa cultura deixou de ser europeia, para ser universal. Não tenho qualquer pejo em afirmar que sinto na alma as raízes africanas da minha cultura. Como sinto as raízes americanas. Como sinto as oceânicas. Não consigo ver num africano, num brasileiro, num timorense, outra coisa que não seja um irmão. Nenhum apelo da Europa consegue apagar esse meu sentimento. E, por senti-lo, sei ter uma força que vai além de ser português, de ser europeu. Seria trágico para mim se assim não sentisse. Estaria a renegar-me a mim próprio. Estaria a diminuir a cultura de que sou um átomo. Seria apenas um mais perdido na amálgama indiferenciada e aculturada.

Por pensar assim é que me parece absolutamente necessário compensar a Europa - na qual seremos sempre pequeninos, sem importância, dominados, comprados - com um esforço de desenvolvimento com todos os países que, como nós, trazem impressa esta cultura de que somos portadores.

Magalhães Pinto, em VIDA ECONÓMICA, em 23/9/2003

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