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12.8.07

A DUVIDA - 153º. fascículo

(continuação)

Mesmo se nada mais me tivesses dado, Maria do Céu, bastaria eu ter chegado aqui para ter valido a pena ter-te conhecido. Deste-me a consciência de que a minha dignidade de ser humano, a minha natureza quase divina, me exige um esforço constante de superação das minhas limitações, as quais, por não ser deus inteiro, conheço. Esforçoo voluntário, esforço sentimental, esforço racional, constantemente dirigido ao aperfeiçoamento da minha existência. Longe das essências etéreas do pensamento, antes na atitude imensamente eficaz do cavador que, depois de sentir o vento e olhar as nuvens, de sopesar a enxada e palpar a terra, arregaça as mangas, cospe nas mãos calejadas e se arrima, denodamante, ao trabalho, antes que o sol aqueça ou a noite caia, sabendo, por intuição ou consciência, que só assim a semente germinará, a planta florirá e a flor frutificará.

Tanta pena tenho, Maria do Céu, por não podermos estar lado a lado, nesta consciência da leira a lavrar, no anseio de construirmos o nosso futuro comum, enxadas do nosso querer na mão, violando a terra endurecida dos nossos preconceitos ao ritmo dum cântico de amor - paternal, filial ou marital, que importa? - entoado em uníssono, regando-a com o suor do nosso esforço e não com as tuas lágrimas, esboroando os torrões mais duros com a firmeza tenaz duma vontade forte, rasando as silvas eriçadas de espinhos surgidas à nossa volta! Tanta pena tenho, Maria do Céu!

(continua)

Magalhães Pinto

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